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Eunice e Ruy

Passeava eu na Marginal, junto ao jardim de Paço de Arcos, zona por onde me aventuro bastas vezes e que nunca me arrependo de visitar, quando, chegado à Praça Guilherme Gomes Fernandes, me deparei com algo insólito. Era fim de tarde, o sol espreguiçava-se denotando vontade em dar o seu lugar à noite e ali estava aquele par, um homem e uma mulher, se quiserem, um senhor e uma senhora. Falavam um com o outro, a bom som, como que declamando poesia ou debitando linhas estudadas de uma qualquer encenação teatral. Olhavam-se, munidos de uma cumplicidade sem igual. Alheios a tudo ao seu redor, era como se nada mais existisse, tal o grau de comprometimento que punham na sua performance. Iluminados por uns focos de luz branca, numa espécie de pequeno palco, ali se empenhavam, mas sem esforço, apenas entregando-se de alma e coração ao diálogo, à conversa que parecia ser-lhes familiar, como se há muitos e muitos anos a repetissem entre eles. Fiquei a observá-los. Não me preocupei em esconder-me ou em evitar que me vissem, mas tudo fiz para não os interromper. A cena era por demais merecedora de toda a atenção que se lhe pudesse prestar. E ali fiquei, como que embevecido, admirado, até, por encontrar algo assim, de todo inusitado, num local por onde tantas vezes já tinha passado. Será que haviam tomado aquela Praça como seu local de actuação? Será que iriam repeti-la, todos os dias, àquela hora ou noutra qualquer, apanhando de completa surpresa quem ali se deslocasse? Sim. Sim. Soube posteriormente que sim a ambas as minhas questões. De agora em diante, quem quiser assistir a mais uma, quiçá a derradeira, encenação a par destes nomes maiores da cultura portuguesa contemporânea, é só por ali passar e deleitar-se com as suas figuras grandiosas em pleno “Ensaio”. Ambos vestidos de bronze, mas a merecerem o ouro, mais do que grandes amigos denotam os tiques comuns a quem é grande sem necessidade de o afirmar. Que o foram na sua arte, mas igualmente como simples cidadãos com fortes ligações ao concelho de Oeiras. Actores, tantas vezes, pessoas comuns, a maior parte do tempo, as suas vidas ficam agora definitivamente ligadas a esta Praça em Paço de Arcos, para quem os quiser homenagear, celebrar ou, simplesmente, recordar. A Eunice e o Ruy.

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Miguel Teixeira

Mais de 30 anos de experiência no mundo da comunicação, especificamente nas funções de criativo, estratega e redactor publicitário. Extenso percurso por algumas das mais marcantes agências de comunicação nacionais e multinacionais enquanto elemento integrante dos seus departamentos criativos e mais recentemente como freelancer. Escritor e autor de várias obras literárias, quer no âmbito da narrativa de ficção quer na poesia. Artista plástico na área da colagem com vasta obra realizada, parte da qual já exposta individualmente ou em colectivas.

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