MemóriaToponímia

Conselheiro Ferreira Lobo

Ensaios de Caxias

Numa conferência proferida há mais de vinte anos em Tilburg, nos Países Baixos, George Steiner procurou destacar alguns dos aspetos que, para ele, caracterizavam e distinguiam a Europa, mesmo diante do seu grande parceiro ocidental: os Estados Unidos da América. Steiner achava que a Europa era feita de cafés; os Estados Unidos, de bares. Que a cartografia europeia resultava da atividade do homem, e percorria-se a pé; na América, tudo se fazia de carro ou de avião. Se, além disso, em Nova Iorque, em Filadélfia ou em Chicago as vias urbanas tinham nomes relativamente assépticos ou impessoais, as ruas, as avenidas e as praças do velho continente recordavam datas, eventos ou personagens relevantes por razões filosóficas, científicas, literárias, políticas ou artísticas. As decorrências de tais diferenças não seriam necessariamente positivas: viver mergulhado em “lugares de memória” poder-se-ia tornar opressivo, sobretudo quando o passado que assim se lembrava era “negro”… E a veneranda conservação do património dos nossos pais e avós esconderia o perigo de coartar a possibilidade de alternativas mais “autênticas” ou mais luminosas.

Fosse como fosse, sempre estaria ao alcance dos europeus redesenhar um novo equilíbrio futuro, tendo em conta as lições dos seus mestres.

Rememorar os motivos dos nomes das ruas que regularmente atravessamos, que percorremos no nosso quotidiano e onde passamos boa parte das nossas existências, é dar-lhes maior espessura temporal e contribuir para um mais alargado sentido comunitário. Causa, portanto, impressão serem por vezes precisas tão porfiadas demandas até encontrarmos fios de meadas extraviados… Se calhar, há dimensões culturais europeias de que, em Portugal, insistimos em permanecer demasiado distantes.

O foco do texto desta edição já aqui foi relembrado, a propósito do Padre Feliciano dos Santos, e, n’A Cartuxa, com a história das vistas murais da antiga Caxias. Num pequeno artigo do Diário de Lisboa de 1962, diz-se ter sido a Ferreira Lobo que se ficaram também a dever as instâncias para “a abertura da estrada entre a Cartuxa e Laveiras” (PT/MOER/MO/CULT-HL/01/ADMPUB/25860). O mesmo se não afirmava com tanta clareza na Monografia do Reformatório Central Instituto Padre António de Oliveira, de 1958, onde, porém, se regista que o conselheiro tinha casa de veraneio junto dos Brunos (p. 145). Da combinação desses dados e circunstâncias, chegou-se a inferir que o seu empenho nas obras correspondesse a razões pessoais. Convirá conhecer, no entanto, um pouco melhor, outras das marcas do seu trajeto de vida, antes de secundar um juízo tão cru.

José Joaquim Ferreira Lobo, nascido aos 30.10.1837, foi filho natural do Visconde de São Bartolomeu, que só o legitimou com 31 anos. De facto, em meados de 1863, ao se casar em Lisboa, o jovem José era ainda considerado filho de “pais incógnitos”. Com esse labéu, ingressara nos quadros inferiores do Tribunal de Contas do reino, provavelmente por mão do Visconde, ali então diretor e, depois, presidente. Viu-se nomeado 3º contador em 1872. Três anos mais tarde, ascenderia um degrau na categoria, subindo, por fim, ao primeiro em 1882. No ano seguinte, foi feito chefe de repartição. E a partir de 1886 acumulou as funções de diretor-geral e secretário (cf. António de Sousa Franco e Judite Cavaleiro Paixão. Magistrados, dirigentes e contadores do Tribunal de Contas… Lisboa: Tribunal de contas, 1995, p. 264): percurso gradual, esforçado e desgastante.

Paralelamente, José Joaquim desenvolveu uma notória atividade de beneficência e foi também publicista. Em outubro de 1871 apresentava-se como diretor e principal redator do recém-criado Diario Nacional (cf. Jornal da Noite, 02-03.10.1871, p. 2). Colaborou com vários outros jornais e com publicações ilustradas de grande prestígio, como O Occidente e Os Dois Mundos. Livros a solo, contam-se As confissões dos ministros de Portugal, de 1871, e Instrucção geral e história dos serviços do Ministerio da Fazenda, de 1874.

Recebeu louvores oficiais, “pelo excelente serviço (…) prestado, e no qual continuou a dar provas de saber, inteligência, zelo e atividade não vulgares” (cf. Diario do Governo de 02.09.1887, p. 1955). Muito semelhantes seriam, em seguida, os diplomas de 1894, 1898, 1899, 1902, 1907 e 1908. Quando da sua ascensão a diretor, O Economista, de António Maria Pereira Carrilho, festejou nestes termos: “O Sr. Ferreira Lobo é um dos ornamentos do alto funcionalismo português: inconcussa probidade, inteligência, zelo, tenacidade mesmo, em que as leis da contabilidade pública sejam cumpridas, são os predicados que sempre tem mostrado o nosso ilustre colega”. E ainda: “Felicitamos o governo pela escolha que fez e o país porque viu fazer justiça a um dos seus mais beneméritos servidores. Se as leis da contabilidade pública começam a ser uma realidade na execução, deve-se isto, em grande parte, ao Sr. Ferreira Lobo; e quem escreve estas linhas sabe o muito que tem de agradecer à lição, experiência e indicações de tão notável funcionário” (08.08.1886). O conjunto dos empregados do Tribunal, assinalando o momento, cotizou-se para lhe dar uma escrevaninha de prata, em penhor de amizade (cf. Commercio de Portugal, 14.08.1886, p. 2).

Desconhece-se que tenha feito inimigos de monta ou que algum dia lhe apontassem desmandos. Muitos foram os órgãos ou instituições sociais a que pertenceu. Em 1909, a nota necrológica veiculada pel’O Occidente dizia que o Conselheiro Ferreira Lobo figurara entre os fundadores da Sociedade Nacional para as Pensões, da Sociedade Promotora de Creches e da Sociedade do Jardim Zoológico e de Aclimatação de Lisboa. Fora, igualmente, sócio da Academia Real das Ciências, da Sociedade de Geografia e da Associação de Jornalistas e Homens de Letras. Assim se justificou a concomitante publicação de um respeitoso busto fotográfico. Nele se vê um aristocrata de meia-idade, farto bigode e severo casaco de duas abotoaduras (20.03.1909, p. 64).

Não muito diversa na composição é o retrato gravado d’A Illustração Portugueza, de novembro de 1888 (figura 1). O artigo que o acompanha reforça, à cabeça, os méritos do personagem, para afastar qualquer veleidade de insinuação de favorecimento indevido: “[…] um trabalhador e […] um forte, que deve exclusivamente a si a elevada posição que ocupa na burocracia” (p. 8).

O seu corpo foi sepultado no jazigo 279, do lado direito da rua 1 do Cemitério do Alto de São João, em Lisboa, sob o título nobiliário do pai (figura 2). Com a passagem dos anos, o único espaço público onde, afinal, ainda subsiste o nome de um funcionário tão celebrado pelas suas virtudes, e de um cidadão que a seu tempo se considerou exemplar, é a avenida da igreja de Nossa Senhora das Dores, em Laveiras. As placas do logradouro mantêm, portanto, a memória de uma vida em que se podem eventualmente redescobrir muitos motivos de inspiração.

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