
Sabedoria com taxímetro ligado
Crónica
Chegado ao Cais do Sodré, fiz o clássico ritual: braço no ar, táxi encostado, bom dia trocado com o motorista.
— Aeroporto, se faz favor.
O motorista assentiu com um gesto breve e arrancámos em silêncio. Eu, ainda meio preso ao dia que me esperava, abri a pasta para confirmar — mais uma vez — os documentos da apresentação da proposta de campanha publicitária que ia defender no Porto, à Administração de um prestigiado e exigente cliente, nacional… e daí, aquela adrenalina boa que mistura responsabilidade com entusiasmo.
Já a passar Santa Apolónia (3 kms depois), confiante e descontraído, decidi quebrar o mutismo.
— Então, tudo bem? Sabe… gosto muito de falar com motoristas de táxi. São os melhores psicossociólogos da cidade. Entra de tudo num táxi. Deve ser uma experiência, notável e que, muito poucos, reconhecem, esse lado oculto, na experiência vivida de um taxista!
E, para puxar conversa, acrescentei:
— Há um ditado antigo que diz que aquilo que não contamos ao pai ou à mulher, contamos ao primeiro desconhecido que encontrarmos na estalagem!
Nesse momento, o motorista levantou o queixo, espreitou pelo retrovisor e perguntou, desconfiado:
— Está a falar comigo?
— Sim, estou.
Ele encolheu os ombros, como quem aceita um destino inevitável.
— Então fale para aí, amigo.
— O problema — confessei — é que hoje nem sei por onde começar. Acha que podemos começar pelo princípio?
Já íamos perto da Expo quando ele decidiu entrar no jogo.
— Então vá lá. Vamos começar.
— Bom dia, senhor motorista. Tudo bem consigo?
A resposta saiu pronta, lapidar, como se tivesse sido ensaiada durante anos:
— Ó meu amigo… um homem com saúde e sem dinheiro é pior do que uma doença!
Fiquei a olhar pela janela, a digerir a frase. Há pensamentos que não precisam de explicação; bastam-se a si próprios. Aquele era um deles. Sabedoria urbana, destilada em cinco segundos.
A conversa embalou. E, já à porta do aeroporto, eu já com um pé fora do táxi, o homem ainda me ofereceu uma última lição — desta vez sobre negociação.
— Sabe, tinha um patrão que negociava gado bovino e com quem muito aprendi. Quando chegávamos a uma herdade que vendia gado, ele perguntava sempre: “Não tem cabras para vender?”
Sabe, ele era único! Fazia sempre bons negócios, porque os vendedores ficavam tão baralhados que faziam tudo para lhe venderem gado bovino.
Agradeci-lhe, apertei-lhe a mão e despedi-me.
— Amigo, tenho mesmo de ir ou ainda perco o avião. Obrigado pelas lições. Oxalá a vida nos cruze outra vez.
Ele sorriu, levantou o polegar e concluiu:
— Vá descansado. E lembre-se: quem pergunta por cabras, nunca paga preço de vaca.
Até sempre.
Na sala de embarque, com os olhos pousados nas pistas de aterragem, saboreava… a sensação de que, naquele táxi, tinha recebido a melhor consultoria do dia — a experiência oculta de quem passa a vida a conduzir histórias alheias!
Publicado na edição impressa Nº 63 de Fevereiro de 2026
FOTO: Eden Constantino na Unsplash

