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De Cooperativa a Biblioteca: um lugar com história e com memória

Centro Cultural e Biblioteca de Barcarena: um espaço aberto à cultura, ao conhecimento e à participação de todos

Neste edifício funcionou, entre 1903 e 1986, uma das instituições mais marcantes da vida operária em Barcarena: a Cooperativa de Responsabilidade Limitada – Sociedade de Crédito e Consumo do Pessoal da Fábrica da Pólvora de Barcarena, fundada em 1895 por iniciativa dos próprios trabalhadores.

Num tempo em que os direitos laborais eram ainda muito limitados, os operários da Fábrica da Pólvora de Barcarena uniram-se para criar uma sociedade de crédito e consumo, nascida da anterior Associação de Socorros Mútuos. A Cooperativa foi criada com 80 sócios fundadores e chegou a ter 300, e tinha como missão garantir bens de primeira necessidade, conceder empréstimos, apoiar a construção de habitação e oferecer apoio médico – uma verdadeira rede de proteção social muito antes de esta ser garantida pelo Estado.

O seu funcionamento era rigoroso e solidário: as quotas eram semanais, havia cadernetas e senhas, e no fim de cada ano os lucros eram redistribuídos proporcionalmente. A Cooperativa estava aberta a todos os trabalhadores da Fábrica, reformados e até viúvas de operários. Instalada inicialmente na Fábrica da Pólvora, a sua sede mudou-se para este edifício em 1903, tornando-se rapidamente um centro nevrálgico da comunidade local.

Ao longo das décadas, este espaço acolheu uma diversidade de serviços essenciais: padaria (construída pelos próprios sócios com o apoio dos Bombeiros Voluntários Progresso Barcarenense), mercearia, carvoaria, saboaria, sapataria, retrosaria, ferragens, louças, tabaco, artigos de escritório, móveis, e até distribuição de géneros ao domicílio. Para os operários que viviam mais longe, foi criada uma sucursal dentro da própria Fábrica, que funcionou até ao seu encerramento, em 1988.

Mais do que um espaço de comércio justo, a Cooperativa foi um verdadeiro coração comunitário. Um ponto de encontro entre vizinhos, um espaço de partilha e convivência. Os homens juntavam-se na taberna a discutir reivindicações e novidades, as mulheres cruzavam-se no balcão da mercearia – e a Cooperativa transformava-se numa extensão da casa de cada um. Era, de facto, uma família alargada, capaz de garantir apoio nos momentos mais difíceis.

No final dos anos 60, num contexto de mudanças sociais, melhoria das condições de vida e perda de centralidade da Fábrica – agravada pela explosão de 1972 -, o número de sócios começou a cair. Em 1969, numa tentativa de sobrevivência, a Cooperativa foi aberta a toda a população como “A Familiar de Barcarena”, mas sem sucesso. As dívidas acumularam-se e, após várias assembleias, decidiu-se encerrar a atividade. Em 1989, o edifício foi adquirido pela Câmara Municipal de Oeiras.

Hoje, mais de um século depois da sua fundação, este espaço renasce como Centro Cultural e Biblioteca de Barcarena. Aqui, onde outrora se partilharam bens e solidariedade, partilham-se agora estórias, ideias, conhecimento e cultura. Este é um novo capítulo de um edifício que sempre viveu ao serviço da comunidade – com a memória do passado bem viva no coração do presente.

Centro Cultural e Biblioteca de Barcarena: um espaço aberto à cultura, ao conhecimento e à participação de todos

A história da Biblioteca Municipal de Barcarena liga-se profundamente à memória industrial e comunitária da vila. Durante décadas, a Fábrica da Pólvora de Barcarena foi o centro da vida local, empregando várias gerações e dando origem a instituições de apoio social e cultural, como a Cooperativa de Crédito e Consumo do Pessoal da Fábrica da Pólvora, que funcionou como ponto de encontro e de abastecimento para trabalhadores e famílias.

O edifício do Centro Cultural de Barcarena fez parte deste património. Localizado entre a Igreja de São Pedro e o vale da Ribeira de Barcarena, e após um período de inatividade, foi objeto de uma reabilitação cuidada, que preservou a sua identidade, mantendo algumas das características originais do edifício da Cooperativa, adotando-se uma linguagem moderna e contemporânea na reabilitação, assente num conceito de equipamento cultural de bairro.

O Centro Cultural de Barcarena acolhe a nova Biblioteca Municipal de Barcarena, um Laboratório STEM e um Auditório com capacidade para 100 pessoas.

A Biblioteca Municipal de Barcarena, integrada na Rede de Bibliotecas de Oeiras, funciona todos os dias úteis, das 9h00 às 20h00, e aos sábados, das 10h00 às 18h00, encontrando-se apetrechada com um fundo documental atualizado, com mais de 6.000 livros, acesso livre a jornais e revistas, espaços de leitura e estudo com acesso livre à internet, e uma biblioteca infantil, com cerca de 1.000 livros.

O Laboratório STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), destinado a todas as idades, será dinamizado em parceria com uma instituição que já colabora com as escolas de Oeiras.

O Auditório do Centro Cultural acolhe várias iniciativas de âmbito cultural do Município, e dispõe ainda de uma programação própria, resultante de uma iniciativa das Bibliotecas de Oeiras – ARCA. A ARCA assume-se como um espaço de criação, partilha e experimentação artística, um lugar onde se guarda e se partilha cultura. Uma ARCA de Cultura. A sua programação integra atividades infantis, concertos, debates, conversas, performances e diversas outras iniciativas, todas dedicadas ao cruzamento da palavra com outras disciplinas artísticas.

Mais do que um novo equipamento, a Biblioteca Municipal de Barcarena representa a renovação de um lugar simbólico, ligando o passado industrial e cooperativo da vila a um futuro assente na cultura, no conhecimento e na participação de todos.

Fonte: C.M.O.

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Renato Batisteli Pinto

Licenciado em marketing pela ESPM - Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo Brasil, autodidata em marketing digital. Humanista e amante das artes. Experiência em marketing digital aplicado aos negócios locais.

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