Ema Lee e Robertes Araújo
Entrevista

Entrevista – Robertes Araújo & Ema Lee


Concerto a quatro mãos

Fotografia de Margarida Maria Almeida

Este concerto a quatro mãos traduz-se numa entrevista a dois distintos pianistas. Ele chama-se José António Robertes Araújo Pereira (RA), 95 anos, uma vivacidade e vontade de aprender insaciáveis. Ela chama-se Ema de Melo Lee Ferreira Araújo Pereira (EL), 80 anos, doce mas firme, uma memória e cultura notáveis. Os sublinhados correspondem aos seus nomes artísticos.

Duas vidas intensas, plenas, delas haveria tanto para dizer: os seus valores sólidos, o amor/dor pelas vicissitudes dos que amam, a defesa firme da qualidade versus mediocridade, críticos acérrimos da boçalidade de alguma comunicação social…

Uma cumplicidade profunda une o casal: um expressa uma ideia e logo o outro a completa. Ema, mais nova 15 anos do que o marido, é uma cuidadora atenta a potenciais ameaças à sua saúde já frágil. Nos espaços onde ele actua – ainda toca piano para quem gosta de o ouvir – antevê a corrente de ar perigosa, a janela aberta que pode desaguar numa constipação… Ema desencantada, as portas que não se abrem mais para o marido poder oferecer a magia do seu piano ao público que ama.

Foto da avó inglesa de Ema Lee

Uma avô inglesa na Corte do Rei D. Carlos.
(Foto arquivo da família)

EL – Nasci em Lisboa, em 1945, perto do Largo do Rato, na Rua das Amoreiras. De sete irmãos, sou a mais nova. Uma infância feliz, normal. O apelido Lee vem-me da minha avó inglesa que não conheci, morreu antes de eu ter nascido. É uma história de amor que aconteceu no tempo da monarquia. O meu avô era violinista na “Orquestra Real”, na corte do Rei D. Carlos de Bragança, ali conheceu a minha avó – Ema Lee -, uma das perceptoras dos pequenos Príncipes: D. Luís Filipe de Bragança e D. Manuel II, último rei de Portugal.

AVPA – Uma história de amor com ingredientes para um romance histórico, um avô violinista na corte de uma dinastia que vivia os últimos dias, uma avó perceptora dos jovens príncipes que teriam um destino trágico. Os dois apaixonam-se, casam, têm sete filhos, sete netos e aqui estamos nós a falar com uma ilustre descendente desse amor…

AVPA – E nós, José? Fale-nos de si! (Insiste para o chamar José, custa-me horrores, mas acabo por ceder…)

RA – Nasci em Lisboa, em 1930, na Avenida Miguel Bombarda, a terceira transversal à Avenida da República. Não tenho irmãos nem irmãs, “je suis filsunique” (gosta de falar em francês, logo veremos o motivo!)

AVPA – Menino mimado… ainda hoje a Ema o mima muito…

RA – De certa maneira sim, mas estou a falar da minha Mãe. Eu vivia com ela, com o meu Pai que era relojoeiro, com a minha avó materna e uma senhora francesa chamada Jeanne Louise Henriette Paine, nascida em Le Havre, Normandia. Veio para Portugal aos 12 anos, os meus Pais tomaram conta dela. Foi a minha segunda Mãe, masecondemère (comove-se, a voz embargada). Mais tarde, mudámos para a Parede, a conselho médico, aquela era a melhor zona de iodo do Mundo e eu tinha problemas ósseos. Um dia, Jeanne entrou em casa, transtornada, a chorar: “O Hitler vai para a frente…” Eram os dias de morte da 2ª guerra mundial, a França estava ocupada pelos nazis e ela a chorar, coitadita (comove-se como se tudo se tivesse passado ontem).

Tive uma infância feliz, houve alguns problemas que me marcaram. A minha avó materna tinha uma irmã mais nova, casada com um senhor de origem alemã. Viviam num palacete na Av. da República, nº 75, onde fui muitas vezes em criança. Ajudavam muito a minha avó porque o meu Pai, que queria ser médico, teve problemas na relojoaria (Relojoaria Suíça). Um acidente vazou-lhe um olho, desfez-lhe a carreira médica, ele não nasceu para ser gestor…

ODE Á ALEGRIA (1)

AVPA – Como surgiu a paixão pela música na vida de cada um vós? Vocação, influência familiar?

Ema Lee tocando piano com o seu neto Tomás. Imagem acompanhada de uma citação de Fernando Pessoa: "O melhor do mundo são as crianças."

“O melhor do mundo são as crianças.” (Fer-
nando Pessoa) – Ema com o neto Tomás – Foto
arquivo da família

EL – Tudo começou na infância. Residíamos perto da Fundação Musical “Os Amigos das Crianças”, fundada pela violoncelista Adriana de Vecchi, formada pelo método de Montessori. Benemérita e pedagoga condecorada por vários governos, dedicou-se ao ensino da música para crianças sem recursos e que não pagavam mensalidade, inovando com métodos menos rígidos, mais livres. “Os Amigos das Crianças” assumiram um papel pioneiro no ensino musical infantil em Portugal, formando gerações de músicos clássicos, alguns integraram orquestras nacionais, outros seguiram o ensino de música. Foi ali que me formei musicalmente, através de um método simples, umas tabuinhas para aprendermos as notas.

Escolhi o piano e não o violoncelo, mais tarde arrependi-me porque o violoncelo permitia mais facilmente ser integrada numa orquestra, ter uma remuneração regular. O piano é um instrumento isolado, é mais difícil, ou se é concertista ou, no meu caso, fui acompanhante musical em aulas de ballet.

Sou muito grata a esta Instituição extraordinária: ali fiz o Curso de Educação Musical, de Piano e Ballet (sete anos, incluindo audições).

Saí dos “Amigos das Crianças”, a família mudou-se para o Algueirão, era difícil manter as aulas em Lisboa. Passei a ter aulas particulares de piano. As minhas irmãs eram alunas da Margarida Abreu, coreógrafa e professora de dança, considerada a Mãe do ballet clássico em Portugal, juntei-me ao grupo, aprendi muito.

Depois, ingressei na Academia dos Amadores de Música. Vivia perto do Estoril e fiz figuração dançada no Teatro Experimental de Cascais, dirigido pelo saudoso Carlos Avilez, designadamente nas “Bodas de Sangue”, de García Lorca e na peça “O Comissário de Polícia”. Conheci muito gente, queria fazer teatro dançado. Inscrevi-me no Conservatório Nacional de Teatro.

As minhas duas irmãs – os outros eram rapazes – morreram já, com a doença de Alzheimer. Fiz tudo o que me foi possível para suavizar os seus últimos dias, fui cuidadora a tempo inteiro.

MARIA BARROSO – RESISTÊNCIA NO FEMININO

Ema e Maria Barroso na festa do Colégio Moderno – Foto arquivo de Família

AVPA – Ema leccionou 27 anos, no Colégio Moderno, como pianista das aulas de ballet. Maria Barroso, durante os longos anos de ditadura, assumiu sozinha a direcção da Instituição, (o marido ora estava preso, ora estava exilado). Trabalhou arduamente para manter de pé o Colégio da família e conseguiu!

AVPA – De aparência frágil, de onde lhe viria aquela força telúrica? Perseguida, vigiada 24 horas por dia pela PIDE, dois filhos menores para criar, nunca vacilou. Que impressão guarda do Colégio e, especificamente, de Maria Barroso?

EL – A frequência do curso de piano até ao 6º ano no Conservatório Nacional, com os professores Olga Prats e Helena Matos, abriu-me portas, enriqueceu a minha formação. Comecei a leccionar no Colégio em 1989, se não me engano. Na época, Maria Barroso acompanhava o marido que era Presidente da República, mas quando os compromissos oficiais lho permitiam, estava sempre presente. Chegámos a falar as duas sobre a mediocridade que reinava numa certa comunicação social, mas ela pouco podia fazer…

Era um conceituado colégio. Sobre a Dra. Maria Barroso, direi que era um amor, uma mulher muito para a frente, podíamos falar com ela, sempre aberta para nos ouvir. Quando ingressei, a Directora era a filha, Isabel Soares, mais reservada, mais distante! Tenho uma fotografia com a Dra. Maria Barroso, numa festa no colégio. Eu era pianista nas aulas de ballet, fazia os arranjos para os bailados. Foi o acaso que me levou para aquela casa: soube que estavam a recrutar uma pianista de ballet, falei com a Ana Manjericão (pioneira do ballet em Portugal, trabalhámos juntas 12 anos!). Expliquei que queria sair, candidatei-me e ali fiquei 27 anos…

RA – A música em casa dos meus Pais era como respirar. Tínhamos piano, a minha mãe e a minha avó não eram a Valentina Lisitsa, mas sabiam ler música (pianista clássica ucraniana, iniciou os estudos aos 3 anos, realizou o seu primeiro recital a solo aos 4 anos). Achava piada ao piano, comecei a “tocar” com os meus dedinhos, tinha para aí uns três anos… Com o tempo, continuei a tocar no meu piano (os meus filhos já o destruíram). Era um piano vertical, acústico, não era um piano electrónico como o que tenho hoje…

AVPA – O som é muito diferente…

RA – O piano acústico é outra coisa! (Pela entoação, pelas pausas, deduzo que fala do parente rico e do parente pobre). Tem que se ligar à corrente, não se afina, está tudo dito! O piano acústico tem um som mais rico, mais robusto, uma ressonância profunda, tem mais força!

AVPA – Pianistas portugueses favoritos?

Ema e Robertes tocando piano no Muchaxo.

Ema e Robertes tocando piano no Muchaxo
Foto de Margarida Maria Almeida

RA – O Sequeira da Costa! Ouviu-me tocar no Bar do Hotel Sheraton, “Clair de lune”, uma peça para piano de Claude Debussy. Bateu-me palmas, deu-me alguns conselhos que agradeci; o Sérgio Varela Cid, foi ouvir-me no Hotel Palácio do Estoril, coitadito, teve um fim trágico… Uma noite estava a tocar no Muchaxo, um fragmento de uma peça de Mozart. A Maria João Pires ouviu-me, passou por mim e sorriu-me. Falámos um pouco. Uns dias mais tarde voltou, olhei para ela e resolvi tocar “Consolação” n.3 de Liszt! Na parte final – vingança dos deuses – mandei uma fífia monumental. Olhei para ela, ficou impassível, nem um só músculo do seu rosto mexeu… toquei várias vezes para o Chico Buarque, convidava-nos para os seus espectáculos. Tenho centenas de histórias que poderia contar… O Mário Laginha é do jazz, mas tem uma educação musical como deve ser. O Jorge Moyano, ouvi-o tocar Rhapsody in Blue, de George Gershwin. Ui, que interpretação… Comecei a estudar a Rhapsody, a Ema conhece o Moyano, foram colegas, nos “Amigos das Crianças”. E o Bernardo Sassetti, que perda imensa…

AVPA – A Ema acrescenta ainda o nome de Maria João Pires. O casal é apaixonado por Chopin, Mozart, Debussy, Schumann (O entardecer), Franz Liszt…

AVPA – Robertes Araújo aprecia José Mário Branco, ama José Afonso. Conta, com a voz embargada pela recordação daquele dia negro, que foi a Setúbal ao funeral;

RA – Eu digo-lhe da tristeza que vivi naquele dia 24 de Fevereiro de 1987, arranjei uma “mentirola” no emprego, e estive em Setúbal até ao último momento. Em todas as ruas, ecoava a “Balada de Outono”: Águas das fontes calai / Ó ribeiras chorai / que eu não volto a cantar… Rios que vão dar ao mar/Deixem meus olhos secar (…). Parecia que o som irrompia do chão…

AVPA – Ser pianista estava escrito nas estrelas…

RA – Na Parede, a minha Mãe conheceu um senhor que fazia parte de conjuntos musicais. Ouviu-me tocar, gostou, e aí vou eu tocar no Blue Star (as bandas da época).

Toquei com o basco “Shegundo Galarza”, tenho ali livros em basco, sei dizer umas palavrinhas…

AVPA – Depois fez-se ao mundo por sua conta e risco!

EL – Tocou nos grandes hotéis da época; no Fénix, no Ritz, no Sana Lisboa, no Hotel Palácio do Estoril; no Sheraton, tocou durante 12 anos…

Panorama Bar, no topo do mais alto edifício da capital, o Hotel Sheraton, (…) desfruta-se o som aprazível de um pianista com provas dadas, Robertes Araújo que não se limita a fazer música ambiente, procurando fazer mais, criar ambiente! Artista do gradual e do subtil, estabelece, sem intromissão, o convívio entre as pessoas. A sua versatilidade é um excelente cartão de visita para quem o escuta e quem vai (ouvi-lo) ao Panorama Bar promete voltar” – 1983, folheto publicitário.

RA – Estudei na Faculdade de Economia, fui economista, trabalhava na Portugal Telecom. Depois, deixei as economias e dediquei-me a tempo inteiro ao piano.

CANÇÃO DE EMBALAR (2)

EL – Foi bem mais feliz com o piano, era essa a sua paixão, não sei como é que aguentava trabalhar tanto… tantos filhos, cuidar deles pela manhã! Há as Mães galinha, ele foi um autêntico Pai Galo!

RA – Tive 10 filhos, todos da mesma Mãe, coitadita. Já morreram três. Dois eram pequeninos. O último foi um soco no estômago, foi há um ano, com 67 anos de idade… foi o maior soco no estômago da minha vida. Chamava-se Fernando, bom rapaz. Tenho sete filhos vivos. Ele não dava importância à saúde, aos médicos! Tenho um filho que vive da música, o Frederico, também é pianista! Tenho três raparigas, quatro rapazes, sete netos, nenhum bisneto. Falo com as minhas netas e digo-lhes: vocês têm um superpoder: transformar-me em bisavô! Riem muito com este meu pedido…

AVPA – E a Ema?

Bolo de aniversário dos 95 anos de Robertes.

Bolo de aniversário dos 95 anos de Robertes
Foto Arquivo de família

EL – Tenho duas filhas e 4 netos. A mais velha tem três meninas, duas são gémeas, a mais nova tem um rapaz.

AVPA – Uma família alargada e harmoniosa potencia a felicidade…

RA – Quando fiz 95 anos, juntei a malta toda na Estalagem do Muchaxo: os meus e os dela! Que alegria! Quando começo no gozo, a dizer que têm que me promover a bisavô, ai Jesus… – (ri divertidíssimo, um riso de menino malandro!)

AVPA – Vamos falar de amor, do vosso…

EL – Era pianista no Muchaxo, há cerca de um ano. O pianista residente foi embora e eu perguntei se podia substituí-lo. Aceitaram-me, foi um enorme desafio porque não tocava música ligeira (boleros, cha-cha-cha, salsa), o meu reportório era clássico. Temos a ideia errada de que quem tem o curso superior de piano sabe tocar tudo: não é verdade! Temos que treinar, aperfeiçoar o estilo. Com o Robertes, aprendi muito, foi uma nova etapa, a da música ligeira! Tocava piano para o jet set que frequentavam a selecta Estalagem do Muchaxo (a nobreza europeia, artistas internacionais, políticos, homens da alta finança, que nos fitam das fotografias espalhadas pelo bar. Em todas elas, orgulhoso, Tony o proprietário!) Passa ali a história dos anos 60, 70…

Como nos conhecemos? Um belo dia, o José meteu-se no seu Volkswagenzinho velhote, foi até ao Muchaxo, encostou-se ao balcão do bar e…

RA – Posso explicar?

AVPA – Somos duas, dizemos que não, aquele era o momento da Ema, foi ali que se conheceram, ela a tocar piano, ele curioso por ver uma mulher pianista. Aconteceu o eterno “Era uma vez…”

EL – Sim, mas intensificou-se quando nos conhecemos melhor.

AVPA – É normal que assim seja! Ele era giro, charmoso?

EL – Era giro e ainda é!

AVPA – As gargalhadas de José ecoam pelo pequeno apartamento. Rimos os três…

LOVE OF MY LIFE (3)

Robertes e Ema em Oeiras, a seguir ao almoço dos 91 anos de Robertes em 2021.

Robertes e Ema em Oeiras, a seguir ao almoço
dos 91 anos de Robertes em 2021 – Foto arquivo
da família

AVPA – José, o que é que o atraiu na senhora pianista?

RA – Quis saber quem era ela. Descobri a idade, que trabalhava no Colégio Moderno… A Estalagem O Muchaxo ainda hoje é parte importante na história de amor que nos liga, há três décadas. Olhe, apaixonei-me! Foi um amor, foi uma coisa doida, uma coisa doida…

Ouvi-a tocar, pensei: ei lá, que é isto? Ela tocava algumas músicas como eu, disse-lhe que também era pianista. Tocámos juntos. E eu saí-me com esta frase “histórica”: Simpatizo consigo (Riem os dois, numa cumplicidade contagiante…). A Ema disse que aquele “simpatizo” teve muito impacto, na época os sentimentos, as palavras eram contidas, tímidas…

AVPA – Entretanto, Ema senta-se ao piano, toca Chopin, um dos compositores queridos do casal. O mar entra por ali dentro, ocupa o espaço todo! Tanta beleza, o geyser afuncionar, o casario cuidado, os barcos no rio. A casa podia até ser um palacete na Ilha Grega de Santorini, mas tenho uma certeza: o piano será sempre a personagem central no espaço que habitam!

José inicia os dias às 07.00 horas da manhã, com as suas pianadas (tocar piano). Continua a compor regularmente. Faz poemas, também regulamente. Na presente edição do nosso Jornal publicamos, com orgulho, o seu poema “Balada para um sem-abrigo!”. Outros se seguirão…

Naquela casa, há pianadas, de manhã à noite, 365 dias por ano!

RA – Calma, deixe-me voltar atrás, àquele dia primeiro, a menina Ema deixou o Muchaxo, no carro de um cavalheiro. E eu não gostei nada: “Olá… que é isto?” Uns dias depois, ligou-me, tratava-se de um amigo. Uf! Que alívio! Não casámos logo: a minha mulher, mãe dos meus 10 filhos, era doente. Casámos, eu teria 25 anos, ela era lindíssima. Tinha um transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), episódios depressivos. Foi internada em casas de saúde, não dormia. Nunca soube da Ema. Respeitei-a sempre, só depois de ela partir é que casámos.

AVPA – José comove-se, várias vezes, ao longo da entrevista, é sensível. Tem uma grande vivacidade, riso fácil, sentido de humor desconcertante, uma gargalhada sonora. Modesto, não diz os nomes de quem acompanhou ao piano, os programas de TV em que participou, as celebridades que o quiseram ao seu lado: Júlio Isidro, Thilo Krasmann, Simone de Oliveira, no programa “Piano Bar”, o tempo tudo relativiza. O entardecer encantatório do fim de uma tarde de verão entra pelas janelas, distrai-nos…

José diz que tudo o que sabe, o deve à Academia dos Amadores de Música de Lisboa, dirigida por um génio chamado Fernando Lopes-Graça!

AVPA – A Ema entrou na sua vida, foi uma revolução…

RA – Ah, ah! Mudou muito, a nossa vida…

AVPA – Está tudo bem: tem uma mulher extraordinária ao seu lado, cuida de si, é uma exímia pianista. Que mais querer? Agora, o tempo é todinho para a Ema falar da sua vida profissional, da sua ligação ao piano, ao ballet, ao teatro, às artes…

EL – Frequentei aulas de ballet no Estúdio de Águeda Senna, conceituada bailarina e notável coreógrafa; frequentei aulas de ballet no Teatro Nacional de São Carlos; frequentei também o curso de teatro no Conservatório Nacional.

Estudei com a Manuela Varella Cid, bailarina, coreógrafa e professora de ballet clássico, fundadora do Grupo Experimental de Ballet que esteve na génese do Ballet Gulbenkian.

Fui acompanhante musical de exames de ballet da Royal Academy of Dancing, uma honra!

Ema Lee, à esquerda e Robertes Araújo, à direita.

Ema Lee e Robertes Araújo
(Foto Margarida Maria Almeida)

Frequentei o curso de piano, 6 anos, no Conservatório Nacional, com as professoras Olga Prats e Helena Matos. No Conservatório Nacional, frequentei também o Curso de Teatro e Ballet.

Fui professora na Escola de Dança de Lisboa, do Conservatório Nacional. Fiz concertos em vários auditórios, acompanhamento ao piano e arranjos da minha responsabilidade. Esta experiência serviu-me como trampolim, outras portas se abriram.

Na verdade, vivia num sufoco – estudar piano, porque tinha que fazer exame. Teatro, ballet, era demasiado! Casei, tive duas filhas e optei definitivamente pelo piano.

Amei fazer teatro, fazer ballet. Não sei se esta escolha pelas artes tem a ver com a tradição da minha família, lá em casa desprezávamos a mediocridade de certa comunicação social…

AVPA – Robertes Araújo está consciente das suas capacidades, continua a tocar em público; sei que gostaria muito de tocar mais profissionalmente, eventos culturais do concelho de Oeiras… Quem sabe? Fala-se tanto de novas oportunidades para os menos jovens: se ao menos o ouvissem para terem uma ideia. Não é uma Maria João Pires, também não é o Grigory Sokolov

AVPA – O José nasceu anos depois da 1ª Grande Guerra, os dois atravessaram, jovens ainda, a barbárie da 2ª Guerra Mundial. Vivemos hoje conflitos sangrentos em larga escala – cerca de 50, um pouco por toda a parte. Há esperança num mundo melhor?

EL – Não sei, gostaria de dizer que sim! Tenho muito receio das alterações climáticas, das suas consequências! Há demasiadas ameaças no ar…

RA – A esperança existe sempre… mas com muitos, muitos receios…

AVPA – E a música? Como a definem? O que representa para a Humanidade?

EL – A Música modela o espírito, transporta-nos para uma dimensão superior…

RA – Agnóstico confesso (diz de imediato, a voz embargada pela emoção): A música é a voz de Deus! Acrescenta, de improviso:

A Música
É imensa! É imensa!
Tem o seu próprio valor
Com poucas notas apenas
Produz Beleza e Amor!

AVPA – José, desejamos que continue a deliciar-se com “Os Maias” de Eça de Queiroz, que está a reler com um entusiasmo tão grande!

Ema, desejamos que consiga concretizar todos os seus sonhos, que tenha muitos anos felizes junto do Homem da Sua Vida.

Em nome do Jornal “A Voz de Paço de Arcos”, um imenso OBRIGADO à Ema, ao José, por tanta generosidade, por tantos ensinamentos!

Margarida Maria Almeida

(escreve de acordo com a antiga ortografia)

Balada para um sem-abrigo

Chegou a noite
Ouvi o vento bater
no vidro da minha janela
e os pingos da chuva caindo
na vidraça embaciada.

Sei que há frio,
mas mal o sinto
pois tenho bons cobertores
e até um aquecedor.

e tu, homem da cidade
que vives na rua gelada
A ti dedico esta balada
Meu infeliz camarada.

Robertes Araújo

Quer receber as nossas notícias em primeira mão?

Não enviamos spam! Leia a nossa política de privacidade para mais informações.

Publicidade

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *