Tempos de Oeiras II
No anterior texto referente aos Tempos de Oeiras, revisitaram-se alguns pormenores do Moinho das Antas, sobretudo antigos e, partindo agora desse bairro, observam-se alguns vestígios de casas feitas para militares, quando mais retiradas da passagem até existiam as habitadas pelos sargentos, notando-se algumas ainda com a inscrição “Património do Estado”. Seguindo no caminho que levará até Santo Amaro, avista-se um grande espaço pertencente à policial autoridade, cujo muro, dantes até parecia demasiado alto para se vislumbrar o seu enigmático interior. Afinal, quem ainda não tinha crescido o suficiente é que muito ambicionava passarem anos, mais uns quantos, para ficar de altura superior ao dito muro e então, poder responder à sua questão formulada enquanto criança sobre o que existiria para além da tal barreira. No lado outro da rua, cruz imponente demonstra às pessoas circulantes ser o «Monumento oficial», mesmo que sem esse imponente título, quando em recuados tempos, havia por ali mais zona militar, alguma ainda bem identificada, já no percurso seguinte, iniciado pela Avenida Carlos Silva. Aqui, prédios recentes contrastam com inúmeras vivendas, térreas umas quantas e outras, de pisos muito bem contados, na generalidade observada, sendo quase sempre, antigas construções. Na rua paralela onde estamos, para o lado sul, é que ficam os moinhos de vento, abordados e fotografados na edição anterior, avistando-se então pelo nosso diurno caminho, pontos diversos em destaque, surgindo primeiro um palacete, onde em tempos, esteve por aí o tribunal, hoje sede de empresa que, com sua identificação à entrada, faz recordar italiano filme de enorme gabarito, “La Dolce Vita”, realizado por Federico Fellini e, com estreia ocorrida em 1960, tendo sido estrelado pelas tão cintilantes presenças de Anita Ekberg e Marcello Mastroianni. Um pouco mais à frente, ainda nessa longa via, casa entaipada com tijolos e demais protecções, nem faz supor ter ali existido o notário oficial. No fim dessa artéria e virando à direita, pequeno jardim protege a Capela de Nossa Senhora da Conceição e Santo Amaro, mais a sua cruz, onde protector outro, também aí se encontra: o benemérito Dr. José Joaquim de Almeida, em busto que não passa despercebido. Descendo pela rua uns metros, apenas para revisitar a placa alusiva à revista “Miscelânia-História-Arte-Arqueologia” e ao primeiro órgão de comunicação social da terra, “A Gazeta de Oeiras”, fundado em 1893, porque ambos tiveram sua direcção e redacção no primeiro andar desse edifício, embora o jornal tenha aí estado durante a sua 3ª série. Percurso já vai indicando o subir de rua, no regresso ao ponto defronte capela, quase junto à casa verde, com esclarecedora toponímia de aí ter residido o escritor Aquilino Ribeiro, entre 1920 e 1927. Prosseguindo na direcção sul, passa-se por uma quinta com entrada bem visível, a qual há uns anos revelava numerosos animais domésticos a pastarem no seu quintal, sendo mesmo apelidada por gente oeirense como “A quinta dos gatos”, pois que quanto a pessoas habitantes, nem sequer vê-las, pelo menos na maioria das circulações envolventes por vizinhança de concelho. Mas nos dias ao hoje escrito, a casa indica ser da Maria, com gatos estando todos ausentes do quintal, bastante sossegado. Na rua perpendicular, a bem famosa escola, antes designada por número um de Oeiras, hoje Conde de Ferreira, situada de frente para uma das partes daquela quinta. Sem perder tempo, estação de correios, a qual funcionou como atendimento ao público, depois bem partilhado com a loja na proximidade de Rua José Falcão, mas actualmente, só esta junto à escola, albergando o posto de distribuição, quando já nem os apartados ali funcionam, estando agora em Porto Salvo e Paço de Arcos, os que ficam mais perto. Consta que terá existido um espaço militar nesta zona, a Bateria de Santo Amaro, a qual dizem, ter ficado subterrada na sua maior parte, no terreno ocupado pela vivenda e seu jardim, a seguir ao edifício dos correios. Registos indicam-nos que, em 1949, Bateria essa ainda aí se conservava, para dois anos depois, já nada existir, pois havia sido demolida e subterrada em função de superiores exigências urbanísticas. Paragem seguinte frente a belo palacete, este a revelar uma obra de arte em azulejos, destacando o Minho, quando pelos anos 70 e inícios de 80, aqui funcionava o Centro de Saúde dos adultos. As crianças teriam de ir um pouco mais abaixo, ainda em Santo Amaro. Mas antes dessa breve incursão, nada como recordar imagem antiga da rua paralela, no percurso tão desejoso de apanhar um pouco de refrescante sombra pelo jardim da Quinta dos Sete Castelos, onde casa histórica, até com capela, vem sendo recuperada. Construção datada de 1899, era propriedade de Waldemar de Albuquerque d’Orey, cuja família tinha origem alemã, chegada a Portugal em 1851, com apelido adoptado por essa altura. Imagem de apalaçada casa antiga, hoje só em maqueta, quando árvores imponentes e sombreiras convidam a ficar, mas havendo o dever de continuar nosso percurso.
(continua)

