Rumo e Remo
Paço de Arcos e o Tejo, a ligação através do desporto
O fascínio do ser humano pelo meio aquático, aliado à sua tendência natural de dominar o meio em que habita juntamente com a apetência para o explorar tambem de forma recreativa ajudou à criação e evolução do que chamamos hoje de desportos náuticos, que juntamente com a natação estão enraizadas historicamente nos paço-arquenses.

Este artigo terá continuação em atualizações
com abordagens histórica às seguintes temáticas:
- Natação
- Polo aquático
- Remo
- Regatas
- Embarcações
Natação
Desde os tempos mais remotos que o homem teve a necessidade de dominar este meio, por vezes inóspito, para o utilizar com fins militares, de lazer ou de salvaguarda da sua própria vida.
Qual lenda grega (Hero e Leandro), temos na história de Portugal, um episodio que será de recordar aqui, em que um marítimo, cujo nome não ficou registado nos livros, que em 1381 três ou seis vezes atravessou o Tejo, de Lisboa para Almada e vice-versa, sempre de noite, para transmitir ordens de serviço do mestre de Avis para os defensores de Almada por estar no estuário uma esquadra castelhana a bloquear todas as possibilidades de comunicação.
CDPA
Escola Naval
Banheiros
Remo
O remo tem origens pouco precisas. Há relatos de Virgílio, na Eneida, que descrevem uma regata de remos ou as supostas corridas entre os barqueiros do Nilo, no Egipto, que teriam competido para ganhar a honra de participar na procissão funerária do faraó. Alguns historiadores consideram que as primeiras competições entre barcos a remo começaram em Veneza, na Itália, em 1315, entre os gondoleiros.
A regata mais antiga de que se tem notícia foi realizada em 1716, na cidade de Londres, quando um famoso ator da época, Thomas Dogget, teve a ideia de criar uma regata que consagrava, a cada ano, o melhor barqueiro da cidade. A prova ainda é disputada com o nome de: Dogget’s Coat and Badge.
A origem do Remo como prática desportiva em Portugal, terá tido o seu início no princípio do século XIX.
Até essa data, o seu exercício estava reservado aos profissionais, sendo contudo conhecidas disputas entre embarcações de transporte de passageiros e entre as guarnições dos navios da Armada Real, as quais despertavam o interesse de multidões que afluíam às margens e aplaudiam com entusiasmo.

A Regata Abel Power Dagge realiza-se todos os anos no Tejo desde…
O nome de Abel Power Dagge, primeiramente ligado ao Remo e posteriormente tambem á Vela, foi o primeiro organizador uma Regata de Remo, a primeira prova realizada em Portugal, foi posteriormente Membro fundador da Real Associação Naval e do Clube Naval de Lisboa, e poderá ser considerado o primeiro desportista náutico em Portugal.
A prática do Remo em Portugal, enquanto desporto organizado, terá começado em 1828 com a fundação do Arrow Club por Abel Power Dagge, os irmãos Pinto Basto e alguns elementos da colónia britânica residente na metrópole.
Já os atletas do Tagus Rowing Club eram, na sua maioria, originários da colónia Alemã existente na Capital (Pressler e Rainer Daehnhardt eram os mais conhecidos), enquanto os remadores do Lusitano eram formados por alguns portugueses nomeadamente os irmãos Pinto Basto enquadrados pelos ingleses que residiam em Lisboa e que traziam o gosto pelas atividades náuticas da velha “Albion”. Ainda em 1871 encontrámos referências a agremiações denominadas “ Club Naval, Club do Tejo, Club dos Remeiros Corsário”. Estes clubes possuíam além das duas guigas atrás descritas, as seguintes guigas: de 4 remos a Janota, a Ondina que se afundou no Tejo em 1882, a Sybilla, a Lançada, a Flirt, a Attempt e a Nereida.
De 6 remos existiam a Alice, a Corsário, a Rower, a Mizpah, a Branca (de D. Afonso), a Verde (de El Rei D. Luís) e a Preta (da Rainha), possuíam ainda os outrigger Swallow, Dark e Light, remavam também em Escaleres e Catraios de 4 remos e nas Canoas dos Yachts de um só homem. Os britânicos Hickie e Mittchell já remavam nos seus próprios Skiffs. Salientamos também as célebres Guigas Ophélia de El Rei D. Carlos e a Vega de Sua Majestade a Rainha, com grandes despiques entre sócias da Real Associação Naval e do Real Ginásio.
Apesar do começo da prática e regulamentação do Remo ter acontecido em Lisboa e Paço de Arcos nos anos seguintes foi seguida mais de perto depois de 1876 pelos habitantes de Cascais e acabou por ser nessa vila e em Lisboa que mais se dinamizou e conheceu um maior incremento.
Apesar disso…
CDPA
Escola Naval
Nos anos 80, a ANL introduziu a variante de Remo Indoor em Portugal organizando, em 1992,
o primeiro Campeonato Nacional de Remo Indoor que conta com um elevado número de
participantes.
Em 1898, no Centenário da Índia devido a um empate numa regata de Remo os atletas da Real Associação Naval e do Real Clube Naval envolveram-se numa zaragata que destruiu a Cervejaria Jansen, no Cais do Sodré, com prejuízos no valor de 400.000 réis (O Infante D. Afonso quis inteirar-se pessoalmente do ocorrido) e em 1906 houve mesmo um duelo à espada, em Cascais, entre Alberto Totta do CNL e Carlos Sá Pereira da ANL, devido a uma regata da Taça Lisboa.
Vela
Em 1849 Abel Power Dagge realizou uma Regata de Remo – a primeira prova realizada em Portugal – durante o ano de 1850 realizou-se a primeira Carreira de Barcos aproveitando a presença da Escuna Britânica “Vixen” no Tejo.

São tambem noticiadas a partir de 1852, por ocasião dos festejos anuais de Paço de Arcos, as Regatas em barcos à vela e a remos, promovidas pelo Conde das Alcáçovas e por um grupo de aristocratas, alguns deles ligados à Casa Real, e por elementos da colónia inglesa, nomeadamente os que haviam organizado as regatas dois anos antes.
Em 1853 a Regata foi presidida pelo Infante D. Luiz que se fez conduzir no Vapor de Guerra da Marinha “Conde de Tojal” e aproveitando a estadia no Tejo do Barco de Guerra Inglês “Odin” realizou-se uma corrida de Remos entre os Marinheiros Portugueses e Ingleses.
Em 1854 começou a realizar-se a Regata do Tejo
Do programa de 1854, para a qual foi criado o primeiro Regulamento de provas existente no nosso País e com abertura de inscrições à população loca e em complemento às Regatas de Vela, constava a participação de duas guigas de 4 remos, tripuladas por “curiosos”.

Em 1855, um grupo de entusiastas da vela, liderado pelo Conde das Alcáçovas, fundou a Comissão Promotora do Real Yacht Club, que se materializaria, a 30 de abril de 1856, na Real Associação Naval, sob a proteção de D. Pedro V, no intuito de «animar a construção e navegação de yachts ou barcos de recreio e promover o divertimento das regatas».
Na sequência destes eventos, foi fundada em 1855 a Real Associação Naval, a mais antiga agremiação desportiva da Península Ibérica e uma das mais antigas do mundo.
Em 28 de Agosto de 1856, aquela associação organizou uma regata em Paço de Arcos que constitui a primeira competição regulamentada, organizada por um clube náutico.
O Remo e a Vela constituíram desde sempre, os passatempos de eleição dos monarcas portugueses como nos conta o Almirante Celestino Soares nos seus Quadros Navais:
Referindo-se a João da Bemposta, filho do infante D. Francisco, Duque de Beja e sobrinho de El Rei D. João V “…– Este filho do infante era muito dado às cousas do mar, como seu pai, que andava constantemente pelo rio no seu iate, acompanhando os navios de guerra que entravam e saiam; mas não era só ele que mostrava gosto pela marinha, era El Rei, que subia a bordo dos navios, era a Rainha, que os ia ver a sair a barra e na falta destes espectáculos divertia-se a passear pelo Tejo nos bergantins reais, seguidos de faluas com atabales, trompas, rebecas e outros instrumentos…”
mais à frente:
“… Para se fazer idea deste interesse e quasi paixão pelas cousas do mar vamos resumir os avisos que as gazetas fizeram das viagens de Suas Majestades pelo rio, preferindo o transito por agua de Belém à Madre de Deus, a Caxias, e outros pontos, ao transporte por terra; …”
D. Luís, pai de D. Carlos, um apaixonado pelo mar, foi destinado por sua mãe à carreira na Armada, tendo comandado o brigue Pedro Nunes e a corveta Bartolomeu Dias. Por morte do seu irmão D. Pedro V, sem descendente, herdou então o reino de Portugal. Ainda como Duque do Porto, presidiu à Reunião no Hotel Bragança que serviu de fundação à Real Associação Naval, tendo inclusive, proposto este nome.
Inicialmente o nome seria Real Yacht Club, mas por iniciativa de D. Luiz ficou Real Associação Naval por ser mais Português.
Por intermédio da Real Associação Naval, através dos seus ilustres fundadores Abel Power Dagge e o Conde das Alcáçovas, muito ligado à família real, inicia-se o desporto amador em Portugal, motivado pelo notável incremento dos desportos náuticos, nomeadamente da prática do Remo e da Vela. Só mais tarde chegaram a Ginástica, o Ténis, o Ciclismo e o Futebol.
Com a introdução, em1878, dos primeiros outriggers de 4 remos, o desporto náutico entra num período de notável incremento, manifestado pelo aparecimento de novas agremiações, no aumento de sócios e na realização de certames náuticos promovidos por estas coletividades, sendo exemplo disso, as regatas de Paço de Arcos e, mais tarde, as regatas de Cascais e as regatas ao longo da muralha da Junqueira.
No âmbito das comemorações do quarto Centenário da descoberta do caminho marítimo para a Índia, El Rei D. Carlos patrocinou vários eventos desportivos e culturais nos quais se incluíam provas de Remo e Vela, tendo talvez sido o expoente máximo do reinado de D. Carlos a nível desportivo. O Rei encarregou a Sociedade de Geografia de Lisboa de encomendar à Casa Leitão e Irmão a concepção de uma obra de arte, destinada a um prémio perpétuo para regatas internacionais de Vela: a emblemática Taça Vasco da Gama.
Foram realizadas quatro edições da Taça tendo, após a morte do monarca, ficado guardada no Clube Naval de Lisboa como que a saudar o seu instituidor.
Na primeira edição da prova, em 1898, organizada em Cascais pela Real Associação Naval, a pedido da Sociedade de Geografia, o Lia de D. Carlos competiu contra o Ketch Caridad de Lord Dunraven, num percurso de quatro balizas colocadas em Cascais, Ponta de Rana, Cabeça do Pato e Oitavos. A vitória pertenceu ao barco do Royal Yacht Squadron com um grande avanço em virtude de, na tentativa de vencer, o iate português ter içado todo o pano, do que resultou a perda do mastaréu do traquete, logo no início da corrida e, ao rondar a primeira bóia, ter ficado sem o mastaréu da vela grande, invalidando qualquer hipótese de vencer a regata.
Ainda integradas nas comemorações realizaram-se mais 3 regatas de Vela em Paço de Arcos, com prémios monetários e medalhas de prata.
Embarcações

Sírius
Foi lançado à água em 14 de Abril de 1877, na presença de Suas Majestades. Após as experiências, e armando em caíque, foi oferecido à rainha D. Maria Pia. O iate dispunha de uma câmara a meia-nau, com sofá à volta, aparadores nos cantos e espelhos nas amuradas. A estibordo, a ré, situava-se a camarinha da rainha e o camarote da sua camareira. A ré da câmara a estibordo, situava-se o camarim do rei e a bombordo o camarote do seu ajudante de campo. No alojamento da proa acomodavam-se o mestre e sete tripulantes.
Em 1983 foi depositado no Museu de Marinha, onde é uma das embarcações mais apreciadas pelos visitantes. Todavia, não está exposto como gostaríamos de o ver: metido numa doca seca, para ser possível mastreá-lo. Só assim ganharia a sua verdadeira beleza.
No grande Pavilhão das Galeotas, construído de raiz para albergar a coleção das grandes embarcações, encontram-se peças que marcaram a história de Portugal.
Durante a sua estadia em França, teve o privilégio de ser pintado por François Roux (1811-1882), um dos mais famosos pintores de Marinha. A pintura original perdeu-se mas, o Museu de Marinha possui nos seus arquivos uma fotografia do quadro original, que reproduzimos, onde se lê a data, o local onde foi feito e o nome do autor.

