
Um Estado de Realismo na Arte d’A Caveira da Mártir
200º Aniversário de Camilo Castelo Branco (Continuação do número anterior)
(Continuação do número anterior)
3. Os críticos literários concordam que Camilo nunca aderiu ao realismo de escola «de traça estrangeira», que rejeitou (Martins 2006, 20), mas que a sua escrita cabe numa conceção de «realismo romântico» (Coelho 2001, 299), enquanto modo de narrar que procura «eliminar a fratura entre real e imitação do real que a estética da representação implicava», processo indispensável ao cumprimento do ideal romântico (Ferraz 2011, 137). A novela «Maria Moisés» tem sido analisada nessa perspetiva, chamando-se a atenção para a forma como os sentimentos das personagens são o único meio de dar a ver a ação («tudo o que nos é dado ver aparece através do sentir dos que viram», Ferraz 2011, 138-139) e como, na primeira parte da história, se obtém «um estilo de reportagem» (Coelho 2001, 323), com o «apagamento do narrador e o facto de delegar na ação e nas personagens a condução da narrativa» (Martins 2003b, 178) e com a descrição dos sentimentos do par amoroso como «um amor sensual e de afetos triviais» (Martins 2003b, 178). Este modo de representação realista, porém, não impede a ação de se encaminhar para o efeito romântico, através da condução das personagens para as circunstâncias do amor impossível ou contrariado.
Assim, quando emerge no discurso de Camilo a presença do realismo de escola, a sua atitude é uma de duas: ou fingida adesão que a ironia descredibiliza ou declarado confronto e reprovação: «Agora somente se pintam as gangrenas com as cores roxas das chagas, e com as cores verdes das podridões modernas. Nos literatos o que predomina é o verde, e nas literaturas é o podre» («Maria Moisés», Castelo Branco 2017, 340). As Novelas são tidas por uma das peças mais conseguidas da obra artística de Camilo, como sublinha J. Cândido de Oliveira Martins: «suma romanesca do universo ficcional de um prosador em inteira posse das suas faculdades artísticas» (Martins 2006, 7). É pacífico entre os camilianos que o escritor se converteu a «um realismo ‘rústico’» (Gomes 2023, 86), uma «estética da naturalidade», que se afirma nas Novelas do Minho pela observação de psicologias, paisagens e ambientes (Martins 2006, 20).
Considerando que dispomos do manuscrito autógrafo d’A Caveira da Mártir, onde podemos observar, através das emendas feitas no texto, o trabalho do autor na configuração das suas personagens, proponho-me saber se o empenho modificativo do autor é ou não dirigido à questão Romantismo vs. Realismo. Analisarei um segmento de discurso do narrador acerca desta questão e alguns aspetos da génese do protagonista (Francisco Xavier) do primeiro par amoroso do romance.
Antes de mais, será necessário ter em conta alguns aspetos da génese d’A Caveira da Mártir. Os dois primeiros tomos foram publicados por Matos Moreira no final de 1875 (o terceiro tomo saiu já em 1876), mas sabemos que o romance estava escrito «há muito» em duas partes (e não em três, como saiu). Numa carta ao Visconde de Ouguela, datada de 3 de agosto desse ano, Camilo escreveu:
Vou rever um romance em 2 tomos A Caveira da Mártir, continuação da Filha do Regicida. Está pronto há muito tempo; mas a segunda e última lima é para mim uma flagelação. Eu queria ser a um tempo escritor e tipógrafo de modo que a ideia saísse logo impressa. (Camilo Íntimo, 190)
Não é possível saber qual o tempo que Camilo compreendia em «há muito», mas sabemos que em 15 de junho de 1874 (Camilo Íntimo, 142) estava ainda a escrever A Filha do Regicida, cujo desfecho é resumido nas páginas iniciais da Caveira. A Filha é publicada por Matos Moreira em 1875 e, nesse mesmo ano, depois de 3 de agosto, saem à luz os dois primeiros tomos da Caveira. Assim, o romance terá sido escrito, muito provavelmente, entre o final de 1874 (depois d’A Filha do Regicida) e o início de 1875, a meses de distância de agosto que justifiquem a afirmação feita ao amigo Ramiro («pronta há muito tempo»). Num trabalho anterior (Sobral 2018) procurei mostrar em que consistiu a «última lima» que Camilo anuncia, já que a utilização de cinco tintas diferentes no manuscrito autógrafo deste romance permite, algumas vezes com total segurança, identificar quais as emendas que foram feitas nesta revisão de agosto de 1875. A alternância das cinco tintas verifica-se apenas nos primeiros 103 fólios do manuscrito, que compreendem a história de Fernando Luís Guião, o médico autor do manuscrito alegadamente fonte do romance (o «Prefacio», que foi primeiro denominado «Introducção»), a história abreviada dos descendentes do regicida (em três primitivos capítulos reestruturados em «Introducção») e o início da história dos bisnetos do regicida, Paulo e Francisco Xavier, com destaque para o segundo, protagonista de um amor mal sucedido e pai de Antónia Joaquina Xavier, a mártir. A utilização da tinta da última revisão observa-se ao longo de todo o manuscrito, mas o facto de esta ser a tinta mais usada na escrita do romance torna difícil distinguir, entre todas as emendas mediatas feitas com esta tinta, quais as que pertencem à revisão de agosto de 1875 e quais as que pertencem a releituras parciais que já estariam feitas «há muito». Contudo, nos primeiros 103 fólios, devido à utilização de outras tintas, essa distinção é possível. Temos, assim, emendas com três cronologias diferentes: as emendas imediatas, feitas em curso de escrita, quando o autor tem todo o suporte de escrita em branco à direita da emenda; as emendas mediatas, feitas num processo de releitura parcial do texto, quando o suporte já está ocupado à direita da emenda e que pertence ao período de escrita de final de 1874 a início de 1875; e, finalmente, as emendas também mediatas feitas na revisão global de agosto de 1875.
Texto publicado em Estados da Arte sobre Camilo Castelo Branco, Edição Imprensa Nacional (2024)
* Universidade de Lisboa — Faculdade de Letras — Centro de Linguística
63 Fevereiro de 2026

