Forte Abaluartado de S. Pedro de Paço de Arcos
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Cachias e as Fortalezas do Tejo – III


(continuação do número anterior)

FORTE abaluartado S. PEDRO de Paço de Arcos

Foi um dos primeiros Fortes a ser planeado e erguido no reinado de D. João IV, por sua determinação e seguindo a proposta para a defesa da enseada.

Foi edificado a Oeste de Paço de Arcos sobre uns escolhos rochosos e junto ao porto marítimo e sua doca, respeitando, tudo o indica, a planificação arquitectónica do holandês Joannes Cieremans ou João Cosmander, como era tratado.

Começou a ser construído em 1641 sob as ordens de D. Joseh de Meneses (tio de D. António L. Meneses) Governador da Fortaleza de S. Gião, que indigitou o Capitão, Miguel António, como seu Governador e responsável pela obra.

Na sua construção original era um Reduto, passando mais tarde a um Forte abaluartado de razoáveis dimensões, justificadas pela estratégica posição que ocupava.

Frente-mar do Forte abaluartado S. Pedro de Paço de Arcos

Frente-mar

Possuindo uma ampla frente para o rio, com a Bataria montada em três faces e a frente a terra de forma angular, tendo o seu Baluarte central e todo o conjunto do aquartelamento rodeado por uma grande muralha.

A construção foi acelerada e no ano seguinte já estava guarnecido por duas dúzias de Soldados, no entanto ainda minimamente equipados.

Durante as suas obras que progrediam a bom ritmo, foi visitado algumas vezes por D. João IV que se mostrava sempre bem impressionado.

Na sua acção “cruzava fogos” sobre o inimigo, com os Fortes de, S. João das Maias, de Nª. Senhora de Porto Salvo e com a Fortaleza de S. Lourenço.

Governadores/Comandantes mais notáveis e obras mais importantes.

Em 1644, sob o Comando do Capitão, Miguel António, seu Governador, recebeu o primeiro equipamento, constando de 10 peças de fogo de vários calibres e em 1647, foi dado como estando suficientemente operacional.

Em 1653, sob o Comando do Tenente, Sebastião da Costa Neto, embora continuando operacional, tinha a sua guarnição muito reduzida.

Em 1701, era seu Governador o Conde de Assumar que fez importantes obras.

Em 1735, encontrava-se praticamente inoperacional. Em 1763, era seu Governador, o Capitão, Joaquim Ferreira Picão que o reequipou substancialmente com 13 canhões de ferro e 8 de bronze. Em 1796, o Coronel, José Matias Oliveira Rego que o reedificou com Baluarte e importantes obras.

Em 1808, durante Guerra Peninsular os Fortes estavam na mão dos franceses. Em 1831, era Governador o Major, Joaquim de Melo Sousa e Meneses e durante a Guerra Civil (1828-1834) estava equipado com 12 canhões de ferro.

Em 1853, no reinado de D. Maria II, num período de pouca actividade, fizeram-se importantes obras, sendo seu Governador o Major Diogo José da Cruz.

Em 1874, é nomeado o último Governador, o Coronel, Joaquim José Esteves.

Em 1878, fizeram-se importantes obras para aí ser instalada a Escola e Serviço de Torpedos, que incluíam estruturas apropriadas e rampas de lançamento de torpedos viradas ao Tejo, um novo Sistema para a defesa marítima de Lisboa.

É nomeado Comandante, o Capitão de Engª. António Augusto Duval Teles.

Desde então tem beneficiado de grandes alterações na sua edificação, adaptando-se para o novo Exército e para diversos Serviços.

Em 1937, recebeu uma nova Bataria de especialistas de Artilharia de Costa.

Em 1940, devido à construção da Estrada Marginal Lisboa / Cascais, foi demolida toda a parte frontal marinha, incluindo a estrutura de Torpedos.

Em 1952, foi aí instalada a Escola Militar de Electro-Mecânica (EMEL).

Frente-Portão de entrada do Forte (a Nascente), o único vestígio que dele ficou.

Frente-Portão de entrada do Forte (a Nascente),
o único vestígio que dele ficou.

Em 1975, foi demolida toda a edificação que restava do antigo Forte/Baluarte, restando hoje, apenas o Portão que existia na muralha a Nascente.

Em 2006, foi planeado e instalado o Centro Militar de Electrónica.

Em 2015, foi aí instalada a Unidade de Apoio do Comando de Logística Militar.

Anoto: – Em 1975, toda a construção que restava do antigo aquartelamento, foi demolida, dando lugar a instalações apropriadas para os novos Serviços.

É de lamentar tal decisão, pois torna-se hoje claramente num atentado ao património Histórico-Militar, evidenciado pelo estado dos espaços a seu lado.

Anexo,
A história de um Herói que mereceu não ser esquecido.

Durante a ocupação Francesa, em 1808, Lisboa encontrava-se ocupada por Junot que, para sua defesa, logo abriu as portas do Tejo à sua Armada.

Numa noite de Abril, sabendo que alguns barcos ingleses se aproximavam vindo em nosso auxílio, mandou uma Corveta, “a Gaivota”, como observador, ao seu encontro. Cedo apareceu-lhe um dos barcos ingleses, o “HMS The Nymph” e o combate naval aconteceu apenas entre as duas embarcações a meio do estuário do Tejo. Os ingleses foram derrotados, deixando nas águas alguns corpos, que nos dias seguintes começaram a chegar às praias.

A Armada inglesa, comandada pelo General Wellesley que já conhecia bem as fortificações do Tejo como muito difíceis de ultrapassar, seguiram pela costa e desembarcaram na praia de Lavos, perto da Figueira da Foz.

Na praia de Paço de Arcos, foram encontrados dois corpos assim identificados: um como sendo do jovem Comandante do “The Nymph”, Conway Shipley, de 25 anos, e o outro de um seu Soldado de nome Glaner.

O “Túmulo do Inglês”

Dentro das muralhas do antigo Forte, foi erguido em sua memória um pequeno monumento fúnebre, em pedra, que ali se manteve até ao início da década de 1940, sendo então removido (devido à demolição do Forte para dar lugar à construção da Estrada Marginal) e colocado no passeio sobre a praia.

Designado por o “Túmulo do Inglês”, fica desta maneira perpetuada a memória do jovem Herói, Comandante do “HMS The Nymph”.

O epitáfio no seu túmulo em inglês, foi traduzido pelo Tenente, Alberto da Costa Andrade, quando prestou serviço na Defesa Submarina de Costa.

“Este monumento é consagrado à memória do Cavaleiro CONWAY SHIPLEY, de 25 anos de idade. Foi capitão do navio de S.M.B. The Nymph. Foi morto no ataque de uma embarcação de guerra inimiga, perto do Tejo, no dia 22 de Abril de 1808. A casos que a sabedoria humana não prever, nem qualquer esforço evitar, malograram o ataque e terminaram a curta mas distinta carreira do seu comandante. Enquanto porém existir o seu nome nos anais da fama e na lembrança da sua pátria, é de esperar que os homens bons e valentes de qualquer nação, acatem as suas cinzas, e contemplem, respeitosos a última morada de um herói”.

Notas:

1-“perto do Tejo”, porque a sua foz era considerada entre Belém e Trafaria, pois a partir daí o largo estuário já era chamado “mar novo ”.

2- Junot, comandou a primeira invasão Francesa em Novembro de 1807, entrando por Alcântara / Espanha e em duas semanas tomou Lisboa.

Seguiu-se a ocupação de todo Portugal. Porém, em Agosto de 1808, foi derrotado na batalha do Vimeiro por tropas Luso-Britânicas, comandadas pelo General Wellesley (futuro Duque de Wellington) e assim terminou esta primeira invasão.

Apontamentos:

1 – As “peças de fogo de Artilharia” (que nesta descrição passamos a designar vulgarmente por “canhões)” tinham vários tamanhos, vários calibres, vários nomes e designações e eram feitos para determinados alvos (p/ expl: os de menor calibre para atingir as velas, os médios para os mastros e os maiores para alvos mais robustos como os cascos).

Podiam ser feitos de ferro ou bronze. Eram apoiados em suportes chamados “carretas ou reparos”. Os seus calibres normais variavam entre 8 a 24 cm.

Os de calibres inferiores eram transportados e manejados individualmente.

Os seus “pelouros” (balas), podiam ser de pedra, mistura de pedra com ferro ou chumbo e de ferro.

Os canhões faziam tiro certeiro, em média e consoante o seu calibre – os menores, dos 200 aos 500m, podendo atingir alvos a 1000m, e os outros dos 700m aos 1500m, que podiam atingir alvos até aos 5000m.

2 – Bataria/Bateria: termo militar/pequeno grupo de Artilharia que é móvel.

3 – Reduto ou Fortim: pequeno aquartelamento na área duma Fortaleza.

4 – Forte: edificação para aquartelar um grupo de Artilharia e que pode ter um Baluarte.

5 – Fortaleza: edificação de grandes dimensões, com Baluarte e Torre, aquartelando mais de um grupo de militares (Artilheiros e Mosqueteiros).

6 – Baluarte: muralha construída em formato pentagonal envolvendo uma fortificação. Muitas construíram dois ou mais Baluartes à sua volta.

7 – Castelo: edificação com altas muralhas, fosso e Torre, com Governador da Região e com mais de um grupo de militares.

8 – Praça Forte: edificação militar que engloba Baluartes, Torres e casario, tendo aquartelado um exército misto e Governador da Região

Consultados os Livros ARCO DE BELÉM A S. JULIÃO de L. Costa Guedes e FORTIFICAÇÕES MARÍTIMAS do Conselho de Oeiras de Carlos P. Calixto e Diversa literatura do século XVIII.

Carlos A.R. Frederico de Albuquerque

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