Crónica

Crónica em forma de assim

Fiz anos. Recebi mensagens, telefonemas, palavras de amizade, de amor, da família, dos amigos! A juventude passou, a cada novo ano estreita-se mais o caminho que me levará ao cais onde a barca me espera…

Em jeito de balanço de vida, quero expressar a minha convicção profunda da urgência de mudança! Da urgência de nos reinventarmos, de fazermos diferente! Não falo de mudanças radicais, mas de pequenos grandes passos que, replicados à escala global, farão a diferença.

Sejamos generosos, humildes – não subservientes – empáticos, abertos ao outro que é diferente de nós, que fala outra língua, que tem um tom de pele mais escuro do que o nosso. Somos todos companheiros deste “milagre” maior que é a nossa caminhada neste espantoso Planeta Azul! Lutemos contra o ódio que corre feito rio, o ódio que mata, que incendeia o mundo em guerras sem fim à vista!

Respeitemos, amemos, veneremos a MÃE NATUREZA. Escutemos a sua voz, o seu pedido de socorro desesperado, que se manifesta de forma cada vez mais violento e mortífero, deixando-nos atónitos com um grau de destruição nunca visto! Perante as consequências do aquecimento global ficamos vulneráveis; se nada fizermos à escala pessoal e global, os seus impactos graves refletir-se-ão na saúde humana, nos ecossistemas, nos países engolidos pelo mar, nos fenómenos extremos como furações, tempestades, secas extremas…

Quem já esqueceu a tragédia recente de Valência, as toneladas de lama que engoliram casas, carros, árvores? Todos vimos as imagens, Valência é mesmo aqui ao lado…

Os avisos dos cientistas não deixam dúvidas: o caminho é cada vez mais estreito. Os relatórios da ONU, a que todos temos acesso e que são credíveis, identificam “a necessidade de ações ambiciosas para evitar consequências catastróficas”.

Não podemos fingir que não sabemos, não podemos fingir que nada se passa, que está tudo bem! Os recursos esgotam-se, é urgente mudar o paradigma!

A sobrevivência da humanidade está seriamente ameaçada. Não temos o direito de meter a cabeça na areia, cada um de nós tem que fazer a sua parte, por mais modesta que seja, é muito importante! Lado a lado, empenhados, conseguiremos – quero acreditar – reverter a fúria de um Planeta gravemente doente.

Só o respeito pelo outro, pela Terra, casa comum que herdámos sem nada fazer para o merecer, só a compaixão pelo mais indefeso e aparentemente mais insignificante ser da natureza, só o amor e respeito – quem não se lembra da recente luta pelos jacarandás? – pelas árvores, pelos oceanos e pela biodiversidade no seu todo nos poderá salvar; esperemos que o tempo esteja do nosso lado… A Biodiversidade é a base da vida e está cada vez mais ameaçada. Protejamo-la com todo o nosso entusiasmo e energia!

Rejeitemos a guerra, as dezenas de conflitos armados que grassam no planeta. Defendamos o pacifismo, condenemos a toda poderosa indústria da morte que desvia recursos que matariam a fome que grassa nos países mais pobres e nos países em guerra!

Gente igualzinha a nós, meninos como os nossos que tanto mimamos, morrem de fome, as suas casas desfazem-se como castelos de areia atingidos pelos drones do inimigo! Não diabolizemos homens e mulheres que atravessam oceanos numa casca de noz porque cometem o pecado de ser pobres, de ansiarem por pão para comer!

É urgente uma nova forma de ser, de viver mais consciente que possa resgatar-nos e resgatar a nossa belíssima casa comum – o Planeta que era azul, agora esventrado, em agonia, protestando com estrondo contra a nossa insaciável ganância, numa luta feroz pela sua própria sobrevivência.

Uma luta desigual em que a ganância que nos cega nos esmagará fatalmente, reduzindo-nos a pó!

Sejamos verticais! Generosos! Intervenientes, tenhamos energia positiva, acreditemos! Protejamos o futuro dos nossos filhos que condenarão a soberba dos que os antecederam e que os trouxeram à beira do abismo. Eles exigem de nós um planeta, saudável, em paz! Devemos-lhes isso e, se falharmos, nunca nos poderão perdoar. Meditemos neste breve texto de Sophia de Mello Breyner Andresen:

“Dai-me”

Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a Beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra, mas ser como ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser.
Dai-me a claridade daquilo que é exatamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida!”

Nascemos para sermos livres, para sermos felizes! E assim deve ser. E assim será com os nossos filhos, com os filhos dos nossos filhos …

Não gosto de galochas pelo simbolismo que representam, mas talvez tenhamos mesmo que as calçar para atravessar a lama e para garantir os Direitos Básicos e Universais do Homem que nos protegem. Usaremos também galochas, se necessário, para salvar a mossa casa Comum – A TERRA. Para garantir que os que virão depois de nós poderão tocar as estrelas na plenitude de um renascido, majestoso e saudável PLANETA AZUL!

Utopia? Por que não? Se essa utopia nos permitir ser mais GENTE, então VIVA a utopia!

“A utopia é o motor que permite realizar os sonhos”
Mestre Galopim de Carvalho na sua crónica para o Jornal Público “Tenho Pressa”, na celebração dos seus 92 anos!

Vamos mudar um bocadinho – um bocadão, se for possível – em cada dia que passa! Vamos amar, proteger a fragilidade da Mãe Natureza, viver de acordo com os ciclos da terra, vamos moderar a nossa veia predadora!

ACREDITEM: NÃO HÁ PLANETA B!

Margarida Maria Almeida

(escreve de acordo com a antiga ortografia)

Quer receber as nossas notícias em primeira mão?

Não enviamos spam! Leia a nossa política de privacidade para mais informações.

Publicidade
anuncio magnésio supremo recordati

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *