Two hands held together in a gesture — Foto: Jyothisha R / Unsplash
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Ecos de três pandemias

Ao longo da história, a humanidade aprendeu – por vezes de forma muito sofrida que as doenças viajam mais rápido do que a memória. Em cada época, quando uma nova epidemia se espalha como vento entre casas, mercados e cidades, as pessoas reagem com uma mistura, primeiro de medo, depois prudência e esperança e, depois, a maior parte das vezes, com esquecimento. Foi assim na época da Peste Negra, repetindo-se durante a Gripe Espanhola, e voltando a acontecer no início do século XXI, com a COVID-19.

No século XIV, quando a peste negra se espalhou pela Europa, esta mergulhou numa sombra aflitiva, sem explicação (uma expiação divina?). As cidades, embora de pequena dimensão, eram sujas e insalubres (ratos e pulgas), e a medicina ainda caminhava às cegas entre crenças religiosas, superstições e observações empíricas. Quem contatasse com doentes era mais sujeito a adoecer; quem vivia em espaços fechados e confinados parecia estar mais vulnerável. Assim, nasceram algumas defesas e uma precaução coletiva. As casas onde ocorreram doenças eram marcadas, evitavam-se contatos com os doentes, os estranhos eram observados com desconfiança, os nobres desterravam-se para zonas rurais. Nalguns portos, surgiu a ideia de se manterem navios e suas tripulações afastados durante quarenta dias, dando origem à palavra quarentena.

O medo estava instalado. As famílias fechavam portas. Limitavam-se os contatos. Os mercados tornaram-se menos frequentados, só as igrejas se enchiam de súplicas. As cidades aprendiam, lentamente, a viver com a distância. Ainda que muitas explicações fossem imprecisas, apenas a utilização de certos ingredientes naturais, como incenso e certas mesinhas com plantas odoríferas, poderiam ajudar a resistir. A intuição humana começava a compreender que o cuidado com o contato e a postura de defesa pessoal poderia significar a diferença entre a vida e a morte. Situação que se verificava no hábito dos próprios médicos da época, chapéu de abas largas, traje negro largo, máscara com nariz saliente contendo ervas aromáticas, bengala para manter um certo afastamento.

Séculos depois, em 1918, o mundo enfrentou novamente um inimigo invisível com a chegada da gripe espanhola. O contexto era diferente: a ciência avançara, a medicina evoluíra e os hospitais existiam em maior número. No entanto, a doença espalhou-se com uma rapidez assustadora, favorecida pelo movimento de soldados e populações após a Primeira Guerra Mundial. Subitamente, cidades inteiras encheram os hospitais, as ruas voltaram a ficar silenciosas e a população dividida entre a necessidade de continuar a viver e o medo do contágio.

As medidas adotadas tinham uma estranha familiaridade com as da Idade Média, embora fossem então apoiadas por um maior conhecimento científico e de salubridade. Escolas e teatros fecharam, eventos públicos foram cancelados com a recomendação de que as pessoas evitassem aglomerações. Máscaras simples de tecido começaram a aparecer nos rostos de médicos, enfermeiros e cidadãos comuns. Cartazes em praças e jornais aconselhavam a lavar as mãos, ventilar espaços e manter distância dos doentes.

Em muitas casas, repetia-se o mesmo ritual: janelas abertas para deixar entrar o ar fresco, lenços cobrindo o rosto, evitando tosses e espirros, e silêncio respeitoso à porta de quem estava doente. As comunidades aprenderam que proteger o outro significava também o proteger a si mesmas. Apesar disso, a circulação de informações incompletas e rumores gerava confusão – um fenómeno que atravessaria também as pandemias futuras.

Quando o século XXI começou, poucos imaginavam que o mundo globalizado voltaria a enfrentar uma crise sanitária de dimensão planetária. No entanto, em 2020, o novo coronavírus espalhou-se rapidamente entre continentes, transformando aeroportos, cidades e aldeias em locais onde se vivia um sentimento comum de preocupação. A pandemia de COVID-19 trouxe consigo tecnologias e conhecimentos que os séculos anteriores não possuíam: laboratórios capazes de sequenciar vírus em dias, sistemas de comunicação instantânea e vacinas desenvolvidas em tempo recorde.

Mas, apesar de todo o progresso científico, em certos casos de aceitação duvidosa, determinados gestos permaneceram surpreendentemente semelhantes aos de outras épocas. O isolamento dos doentes, a quarentena obrigatória evitando contatos, o encerramento temporário de escolas e espaços públicos e o uso de máscaras voltaram a fazer parte do quotidiano, assim como os cuidados preventivos, tais como a medição constante da temperatura corporal ou as zaragatoas em que cotonetes enormes eram enfiados pelas narinas, permitindo diferenciar situações de maior ou menor risco. Imposições legais obrigavam à manutenção da distância física nos espaços públicos como forma de cuidado.

Em cada uma destas pandemias, repetem-se também as mesmas lições. A primeira é a importância da solidariedade coletiva. Nenhuma pessoa atravessa uma epidemia sozinha; a saúde de cada indivíduo está profundamente ligada à saúde da comunidade. A segunda lição é o valor da informação e do conhecimento científico. Enquanto na Idade Média, predominavam crenças e tentativas empíricas, nas crises mais recentes, a ciência tornou-se uma bússola essencial para orientar decisões e salvar vidas…

Assim, quando observamos a história da peste negra, da gripe espanhola e da COVID-19, percebemos que elas formam uma espécie de espelho ao longo do tempo. Em cada século, os rostos são diferentes, as cidades mudam, e o conhecimento cresce. No entanto, os gestos de prudência – lavar as mãos, evitar o contato durante surtos, proteger os mais vulneráveis e confiar na cooperação coletiva – permanecem surpreendentemente semelhantes.

Cada geração enfrenta o medo à sua maneira, mas deixa para a seguinte um conjunto de cuidados, precauções e histórias. E mesmo com novos desafios, como as alterações climáticas, enquanto a história continuar a ser contada, essas vozes do passado recordarão que, diante de um inimigo invisível, a prudência, a ciência e a solidariedade continuam a ser as defesas mais antigas – e mais eficazes – da humanidade.

Plagues and Peoples, de William H. McNeill. New York: Anchor Books, 1976. Estudo clássico sobre a história das epidemias e o impacto das doenças infeciosas no desenvolvimento das sociedades humanas.

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