Visionismo, 30 Anos

A Voz Impresso | Série: 3| Nº: 39| Fevereiro | 2022 | Autoria: Luís Vieira-Baptista | Ilustração e Telas: Luís Vieira-Baptista

O Visionismo é uma espécie de pareidolia da Alma; a minha amiga Conceição Vieira Coelho, curadora das últimas exposições de pintura que realizei,escreve no prefácio do último livro/álbum sobre a minha obra, “Sonhar Portugal”, editada pela Estoril Sol em Dezembro do ano passado, o seguinte: “No Visionismo, as formas aprisionadas numa mancha de cores aleatórias, emergem, como uma imposição subliminar, anunciando e desvendando situações que perturbam o pensamento do seu autor, um diálogo silencioso entre o artista e a tela”.

A primeira exposição Visionista, com a publicação do respectivo Manifesto lavrado pela historiadora e crítica de Arte franco/armeniana Chakè Matossian, realizou-se em 1991 no Convento do Beato, em Lisboa, local que até aí nunca tinha sido usado para manifestações culturais.

As minhas obras ali presentes foram realizadas em locais cedidos pela C.M. de Oeiras, graças à amabilidade do presidente Isaltino Morais, que me cedeu uma zona do Palácio do Egipto, ainda devoluto, e onde decorriam os censos daquele ano. Para a modelação das esculturas, obras feitas em conjunto por mim, Júlio Quaresma e Velhô, dois colegas que convidei para fazerem parte do Grupo Visionista, foi-nos permitido utilizar as oficinas que fazem parte da Galeria/Livraria Municipal Verney, embora naquela época tivesse outro nome e não era propriedade da C.M. de Oeiras: chamava-se Galeria Espiral, e eradirigida pela Gisela Campos. Poucos meses antes tinha lá exposto uma série de pinturas como aperitivo para o que iria ser a grande exposição no Convento do Beato. Intitulei-a “A caminho do Visionismo, 1987/1991”…

O vídeo documental da 1ª Exposição do Visionismo pode ser visto no meu site da internet vieira-baptista.com e acedendo aos vídeos.

Os trinta anos da efeméride realizaram-se no recém inovado Aquário Vasco da Gama, em Algés, numa cerimónia muito bonita mas condicionada pela pandemia que nos assola; no Beato compareceram 880 pessoas no dia do vernissage, aqui éramos quinze, contando com o Comandante Nuno Leitão, director daquela instituição…

Há, contudo, duas formas de medirmos o tempo: a vertical e a horizontal, sendo esta a mais frequente por se encontrar no plano existencial humano. Mas a que permanece é a outra. Por ser a que encerra as nossas acções no domínio da transcendência, é a mais importante, pois nesse plano não se contam os anos mas registam-se as acções para a posteridade.

Muita obra foi feita nestas décadas seguindo as pegadas do Visionismo, o meu “magnum opus”, seguido por bastantes artistas e que, afortunadamente, continuarão a utilizar esta corrente estética depois da minha morte, passando-a a novos seguidores. Até agora, nenhuma importância institucional lhe tem sido dada, e as galerias com que trabalhava fecharam. A visibilidade que consigo, acenando de vez em quando ao público com um “Estou vivo!”, é fruto da minha persistência em manter-me activo/vivo, pois enquanto a saúde me permitir continuarei a tentar sobreviver juntando o dinheiro de algumas vendas à minha pensão de reforma, insuficiente para se viver dela.

Nada é mais difícil para um português que ser português em Portugal; acredito que qualquer outra Nação teria orgulho de ter gerado um compatriota que introduziu uma nova corrente estética na História da Arte. Infelizmente, a Pátria que deixou Camões morrer à fome, só olha para ele para encher a barriga à sua custa, e mais de cinco séculos depois não houve melhoras.

Não estou magoado, pois ao amar a minha Pátria reconheço-lhe os defeitos. Limito-me a fazer o meu trabalho e deixar as coisas correrem naturalmente, sem mágoa, pois isso perverteria a minha capacidade de criar. Já emigrei duas vezes e podia tê-lo feito outra vez se isto me incomodasse muito; mas não, o vírus da Lusitânia é endémico e acompanhar-me-á até à morte.

Não nos mata, mas morremos com ele.

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Rui Veiga

Da primária ao secundário, nas escolas da Vila, da Ginástica no CDPA à Natação e ao Polo Aquático na piscina da Escola Náutica, muito aprendi nesta terra onde vivo. Hoje com formação em História de Arte e Desenho, abracei o desafio da Voz de Paço de Arcos, de ajudar a manter um jornalismo cívico, público, de contato próximo e comunitário.

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