Ensaio sobre A Liberdade

O conceito de liberdade é complexo e muitas vezes quase intangível, rios de tinta vincaram papel sobre a condição de ser-se livre, mas a dúvida persiste: em tempo de guerra no velho continente, o que é afinal a liberdade?
Seremos verdadeiramente livres?

Nas primeiras considerações em anteface do livro ‘O Crocodilo, ou a Guerra do Bem e do Mal’ – alegoria de Jean-Claude de Saint Martin – cita-se Leonardo Coimbra nesta prosa: ‘O Mal existe e é imoral negá-lo’; mas o Mal não é em si mesmo um princípio; o Mal não é imutável.

Ora, este Crocodilo, era monstruoso na forma e no tamanho, chegando a ocupar todo o universo, capaz de metamorfoses fantásticas, podendo aparecer na forma de um escritor, um orador, um guerreiro, um sacerdote, podendo aparecer até como um cordeiro, ele, é a própria representação do mal e, cuja criação do mundo lhe é atribuída, apesar de, diga-se, estar esse mesmo mundo submetido a um Deus superior que é o Infinito, o Incognoscível, Bom e Poderoso. Descortinando: o bem, pode ser a probidade vigente e aceite na altura em que as acções decorrem e, o mal, a falha no cumprimento dessa probidade.

Ao longo dos tempos a classificação do que ao decoro e rectidão dizem respeito, foi variando mediante o estado de consciência individual ou colectiva. Todos os grandes filósofos encontram na liberdade a mais alta e nobre expressão do bem. Para Kant por exemplo, ‘Neste mundo, e até fora dele, nada é possível pensar que possa ser considerado como bom, sem limitação a não ser uma coisa: a vontade boa.’[1] Claro está que, a vontade só é potência de acção se houver liberdade para a concretizar. Continua ele, ‘A vontade, esse querer do homem obstinado, deve ter a sua origem e apoio num coração aberto à nobreza, à beleza e à justiça; de outro modo é apenas gume fino e duro de faca; por isso mesmo frágil, na sua aparente penetração e resistência.’[2]

Sampaio Bruno, em A Ideia de Deus, lembra-nos que é a Saint Martin que deve atribuir-se a divisa da revolução Francesa ‘Liberdade, Igualdade e Fraternidade’, fórmula trinitária e axiológica onde resplandece o sonho da Terceira Idade do homem, a do Espírito, fortemente alicerçada na primeira, a da Liberdade. Sabemos que o movimento esotérico Martinista do século XVIII, incontornavelmente influenciado por Pascoal Martins – seja de origem espanhol ou portuguesa, porquanto no seu Tratado e Reintegração dos Seres “denuncia escasso conhecimento da língua francesa e está cheia

de frases bárbaras, que tanto podem ser castelhanismos como lusismos” – dizíamos, influenciou mais ou menos secretamente todo o período iluminista francês, assim como o movimento gnosticista português, especialmente no seu máximo expoente, o de Sampaio Bruno. Nas suas teses de criação demiúrgica e do pecado, ou do mal como uma queda em Deus, ou ainda, do Espírito alterado para o Espírito puro, tão centrais em Bruno ou no saudosismo de Teixeira de Pascoaes; a guerra do bem e do mal pode ser expressão alicerçada na restituição da liberdade; libertando a humanidade da influência funesta do mal, ou seja, libertando-a do Crocodilo.

Nesse conto alegórico, é por um pó mágico, guardado em caixa de ouro em forma de ovo, que Eleazar pode dominar os inimigos, tem o dom da profecia e de transformar homens estúpidos em homens inteligentes. O Crocodilo por seu turno, e os seus numerosos agentes, pretendem destruir Eleazar, nome velado para Pascoal Martins segundo António Telmo, pois este, através do seu ensino e pela forma como lida com o mundo, evita que o Crocodilo consiga dementar e agrilhoar a humanidade, mantendo-a livre.

Talvez a mais célebre personificação da liberdade seja a de Delacroix, desnudada, guiando o povo revolucionário por uma ausência de submissão ao feudo. Todos os maiores filósofos como Sartre, Descartes, Kant, ou Espinosa dissertaram sobre ela. Está na base de modelos paradigmáticos de organização social e incontáveis vezes foi, e é, o veículo para guerras e conflitos. Inúmeros distintos homens, mantiveram-se homens livres malgrado condenados. Tomando grandes exemplos de mentes libertas, conclui-se que não, a liberdade não se mede pelo espaço onde coabita diariamente o corpo.

O Homem Universal de Teixeira de Pascoaes, diz-nos que o ser humano é essencialmente criador, e é-o pelo poder excessivo de se elevar acima do seu nível, uma espécie de capilaridade transcendente. Continua ele, que ao libertar-nos das leis mecânicas, libertamo-nos com a consciência a orientar os nossos actos. Liberdade é a consciência em acção.

Agostinho da Silva traz uma mudança a respeito do conceito de liberdade juntando-a ao livre-arbítrio da vontade, enfatizando que o mal não é consequência de factores políticos ou da natureza humana, ou ainda, de alguma entidade espiritual. Para ele, a liberdade divide-se em três partes essenciais: a liberdade cultural, a de organização social e a liberdade económica. A liberdade cultural servirá para o individuo desenvolver ao máximo o seu espírito critico e criador; a liberdade societária, serve ao homem a intervenção no arranjo da sua vida em sociedade; e, pela liberdade económica, o homem assegura a libertação das preocupações de sustento, dedicando-se ao que há de mais belo e amplo – criar; sendo o tal poeta à solta.

Na heterodoxia de Sampaio Bruno, o seu esforço a este propósito encerra-se na libertação da mente de saber místico, a liberdade nunca é uma dádiva graciosa; é sempre uma penosa conquista. Na sua doutrina o povo português ama a liberdade. Onde o pensamento não esteja à mercê do feudo; onde o organismo moral possa, sem atritos, expandir-se; onde a palavra escrita não sirva de antecâmara ao presídeo; onde não seja crime vulgarizar opiniões; onde uma atmosfera de simpatia inteligente vivifique o espírito individual; aí é que está a pátria, e por consequência está a liberdade. Havendo liberdade, há pátria, havendo pátria há Deus.

Abusando dos silogismos, diríamos que para Bruno, a ideia de Deus e pátria estão unidos. Atendendo ao Movimento da Filosofia Portuguesa – liberdade é a ignorância do destino, é fazer por esperar o trono da pomba quando este tiver de vir, como os portugueses que chegaram a Calecute e receberam a ilha dos amores da Deusa como recompensa, sendo que a própria Deusa moveu a ilha, para que estes a encontrassem. Chegamos então a uma definição antagónica: porquanto a Liberdade é a ignorância do destino, e o destino, pode ser o ignorar da Liberdade.[1]

Pouco se fala do talvez mais brilhante filósofo do século XVII, ou mesmo de todas as eras, o filho de Marranos Portugueses, Bento Espinosa. Não é possível entender a Liberdade em Espinosa sem primeiro atender ao seu conceito de Deus. Um outro judeu chamado Einstein, considerara que, “se existe um Deus, Ele é o de Espinosa”.

Espinosa não acredita na transcendência, não crê no mundo dos espíritos, para ele não há um Deus criador, um Deus que olha de cima, de fora do mundo físico, há isso sim, uma única substância presente em tudo o que existe e que pode manifestar-se de diferentes formas no concreto; tudo é natural, tudo tem a mesma essência. Essa “coisa” pode justamente, sem blasfémia aos olhos de hoje, chamar-se de Deus; é uma imanência absoluta, uma substância que vem de dentro, ou que está dentro de tudo. De certa forma esta é uma visão panteísta de Deus. Para ele, essa substância ou “coisa” é absolutamente livre pois não é coagida por nada, é causa e destino de si própria, sem limitações; ao invés do homem, que não é livre pois é coagido pela fome, por exemplo, para comer; é coagido pelo frio, para se aquecer; é coagido pelo medo, para se defender ou atacar, entre muitas outras. Ou seja, muitas das acções do homem são causadas pela própria natureza imposta.

Para Espinosa, o mal – o Crocodilo – é então a expressão de uma reacção à falta de liberdade, apenas porque os homens estão conscientes das suas acções, mas ignoram as causas pelas quais são determinadas. Soubessem eles as causas por detrás das acções e estariam mais próximos da verdadeira liberdade. Em suma, para este racionalista, o livre-arbítrio não existe, e, só Deus é livre, pois age exclusivamente pelas leis da natureza sem ser coagido por coisa alguma.

Nesta senda concluímos pois, não sermos totalmente livres enquanto pertencentes ao mundo fenoménico, em que somos escravos da casualidade. Acreditamos que agimos livremente, quando na verdade, estamos sujeitos a determinações e leis superiores a nós, imbuídas na natureza das coisas, a acção-reacção no oculto, a que chamamos comumente a vontade de Deus, por isso, com a consciência majorada, sempre nos prostramos à prudência das frases ‘Se Deus quiser’, ‘Incha’Allah’ ou ‘Lirot et Elohim’, consoante o credo.

Regressando à alegoria, sem nunca ter saído dela, Saint Martin atribui ao Crocodilo o domínio dos princípios de todas as ciências, excepto da gramática, que do grego significa ‘letra’ e de uma consciência dos fenómenos causais. É portanto no bom uso do verbo, alternado pelo silêncio, algo que escapa ao domínio do Crocodilo, como manifestação contrária do que ele representa, que o bem se cumpre na Terra.


[1]Agostinho da Silva in Espólio


[1]Kant in A Revolução Coperniana na Filosofia

[2] Kant in A Revolução Coperniana na Filosofia

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One thought on “Ensaio sobre A Liberdade

  • 20/06/2022 at 10:03
    Permalink

    Obrigado pelo excelente trabalho filosófico que nos leva à reflexão.
    Alertas muito importantes para que saibamos o valor da liberdade e de outros valores
    fundamentais para a vida em sociedade.

    Reply

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