As invasões francesas e Paço de Arcos

Lança-Coelho
José Aguiar Lança-Coelho

Junot comandou a primeira invasão dos exércitos napoleónicos a Portugal e esteve na Linha de Cascais.

Assim, depois do 2º Batalhão do Regimento nº 70 de Linha, comandado pelo capitão Remigny, ter saído de Lisboa, passaram em Paço de Arcos, onde aconteceu um episódio, que nos é relatado por Francisco da Fonseca Benevides na sua obra No Tempo dos Franceses (Barcarena, 2012).

Saídos de Lisboa ao alvorecer, cerca das 6 horas, do dia 30 de Abril de 1808, chegaram a Paço de Arcos antes das 9 horas, momento em que os oficiais, dirigindo-se a uma casa de pasto, mandaram fazer o almoço.

Beneficiando desta paragem, o tenente Dufourcq deslocou-se até à praia, onde lhe sucedeu ser alvo de uma enorme quanto inesperada ovação, proveniente de um bando de rapazes maltrapilhos que, ao mesmo tempo que davam vivas aos franceses, atiravam os seus barretes ao ar.

Surpreendido, o militar francês pensou numa primeira reacção que, se tratasse de um gozo levando a efeito pelos petizes, depois, lembrando-se das acções humanitárias realizadas naquele local pelo general Travot, comandante da divisão que trabalhara naquela região, convenceu-se de que a manifestação de que era alvo, era sincera.

E assim, decidiu agradecer a ovação da rapaziada, fazendo inúmeras vezes a continência, enquanto retirava a sua barretilha, começando também a atirá-la ao ar.

A rapaziada mudou então a sua estratégia, iniciando uma choradeira acompanhada de um estender das mãos e dos barretes, pedindo uma esmola.

Compadecido da miséria ostentada pelas crianças, todos filhos de pescadores miseráveis, o tenente Dufourcq pegando em todas as moedas de cobre que possuía, atirou-as para longe, provocando a debandada do grupo que desatou a correr para ver quem apanhava mais moedas.

Diga-se também que o militar francês, juntou ainda àquele pecúlio, duas moedas de seis vinténs em prata cada uma, que foram distribuídas por todos.

Logo que o grupo de rapazes começou a corrida em direcção às moedas atiradas ao vento, o militar francês preparou-se para se retirar, mas em breve percebeu que um rapazinho, de cinco anos, completamente nu, só ostentando um barrete, lhe puxava o sabre tentando conduzi-lo para a povoação.

Levou-o então, para uma casa térrea, situada numa rua estreita junto à praia, cuja pobreza interior, impressionou o militar.

Lá dentro estava uma mulher ainda nova, viúva de um pescador, que se debatia com a morte. Junto desta, uma rapariga de oito anos, sua filha, tentava que a mãe comece um bocado de pão negro e duro, que ela já não conseguia ver. Para completar este quadro de miséria, sentada no chão, o militar francês vislumbrou ainda uma idosa, que era sua mãe, segurando umas contas.

A mobília resumia-se a uma tripeça de pau, sem costas, que tinha por cima um tacho de barro e um púcaro sem asa, uma velha arca, sem tampa, e a um canto da casa, um pote de barro, quebrado na borda.

Tudo isto impressionou o militar francês de tal modo, que o fez dar um cruzado novo e três moedas de doze vinténs àquela pobre família, e depois saiu para procurar um médico. Porém, quando passou a porta, viu um padre, com a Santa Unção, acompanhado de um sacristão e de um velho pescador que o fora chamar. Entretanto, o sacerdote ungiu a mulher que em breve deu a alma ao criador.

Ao regressar á casa de pasto, Dufourcq contou o que vivera aos seus companheiros, e com a ajuda do pecúlio do capitão Remigny, o mais endinheirado de todos, mandou o seu impedido comprar dois colchões, uma peça de chita, dois cobertores, que fez chegar àquele antro de miséria, juntamente com uma panela, juntamente com uma porção do rancho do destacamento.

O destacamento pôs-se de novo em marcha, eram 14 horas, e antes da noite, chegava a Cascais.



José Aguiar Lança-Coelho

(Licenciado e Mestre em FILOSOFIA pela FLUCL)

(Escreve de acordo com a antiga ortografia)

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