Rua Alan Oulman

Placa toponímica - Rua Alain Oulman – Terrugem - Paço de Arcos
Placa toponímica – Rua Alain Oulman – Terrugem – Paço de Arcos

Nome de rua” é uma das doze peças do álbum Fado Português, gravado em 1964 nos Estúdios Valentim de Carvalho, aqui, em Paço de Arcos, não será certamente um dos títulos mais conhecidos de Amália Rodrigues, que, ao tempo da gravação, não imaginaria ter o seu nome atribuído a nome de rua nesta localidade.
Também na Terrugem em Paço de Arcos, uma outra rua, quase gémea, paralela nas suas retas e curvas, com o nome de Alain Oulman, inaugurada no mesmo ano de dois mil, homenageia um homem que primou por não se evidenciar, que na sua convivência com inúmeros nomes famosos, das artes do espetáculo, da literatura e da política em tempos conturbado, sempre manteve uma postura humilde apesar das grandes contribuições que trouxe para cada uma dessas áreas.

O paralelismo das duas ruas, alude, com certeza, à simbiose e empatia que entre os dois foi vivida durante a sua relevante ligação artística e o nome de Alain Oulman aparece sempre ligado ao da diva, porque a revolução que trouxe nas suas composições, mudou para sempre a o género a que se dedicou, pois inovou não só abordagem estilística, até então muito presa a raízes muito tradicionais mas também pela sua pioneira vontade de estabelecer um determinado e fecundo enlace entre a poesia portuguesa mais erudita e essa tão específica forma de música popular, o Fado.

Nós portugueses somos realmente assim, afirmamos a pés juntos, que só um português pode sentir o fado, porque só nós soletramos saudade, porque só nós dizemos adeus, porque só nós choramos cantando. É uma espécie de masoquismo fadista que começou com as guitarradas de Alcácer Quibir, e já vai nas desgarradas do turismo para equilibrar o orçamento geral do estado. Bom, mas eu acho que isto não é bem assim, para se sentir o fado, a importância do fado no todo da música portuguesa, não é preciso ser português, é preciso sim, possuir a arte de amar Lisboa. E hà um francês, que entendeu isto melhor do que muitos de nós, ele compôs para Amália, uma expressão de fado, nova, um estilo dentro de outro estilo, e o fado continuou fado, porque nós o aprendemos de cor… …connosco, Alain Oulman

Paulo Renato, Teatro Municipal de São Luiz, Lisboa, 7 de Julho de 1980 – Homenagem a Amália

Era assim apresentado por Paulo Renato, no dia em que Amália Rodrigues foi homenageada e condecorada por Nuno Kruz Abecasis, Presidente da Câmara de Lisboa, com a Medalha de Ouro da cidade. A brilhante introdução resume a forma como o compositor é lembrado pelos portugueses, mas Alain Oulman, ou “Pitou”, para os mais chegados, foi muito mais do que um compositor de Fado.

Alain Oulman

Quinta de São Mateus, Dafundo - 1986
Quinta de São Mateus, Dafundo – 1986

Alain Bertrand Robert Oulman nasce na Quinta de São Mateus, no Dafundo, a 15 de Junho de 1928, filho de Albert Emile José Bensaude Oulman e Nicole Germaine Calmann-Lévy, um casal judaico-francês radicado em Portugal, os seus pais tinham deixado Paris durante a Primeira Guerra Mundial e instalaram-se inicialmente nos Açores, na Ilha de São Miguel, onde viviam os avôs paternos, e só em 1922, aquando da morte do avô, amigo de Antero de Quental, é que se instalam no histórico edifício do Dafundo.

A família materna estava ligada a uma das mais antigas e famosas editoras francesas, a Calmann-Lévy, fundada em 1836. O pai era um poderoso industrial que tomou conta de alguns dos negócios familiares, ligados a compra e venda, a nível internacional, de carvão e outros minérios, cereais e cafés, por via marítima.

A alcunha porque sempre foi tratado, pelos mais próximos, ”Pitou” deriva dos vícios literários que teve desde criança, quando já pesquisava exaustivamente na enciclopédia Petit Larousse, o que originou o epíteto, foi criado num ambiente ultra conservador da época, teve aulas de piano e também despertou bem cedo para as artes do teatro, cinema e literatura, sobretudo para a poesia portuguesa. Frequentou o colégio St. Julian’s em Carcavelos e posteriormente cursou Engenharia Química, na Suíça e em França, tendo sempre continuado a aprender música.

Finalizados os estudos, numa breve passagem por Paris, onde chegou a compor, pelo menos uma música (Je soussigné), para Yves Montand, e posteriormente por Nova Iorque, Brooklyn Heights, onde era suposto continuar os estudos e vir a trabalhar, mas preferiu mergulhar aí, na crescente cena musical de Greenwich Village e veio a conhecer o ensaísta e dramaturgo James Baldwin, também ele um apaixonado por música, particularmente por blues e jazz, criando ambos uma amizade para toda a vida.

A estadia nos Estados Unidos foi subitamente interrompida, com a notícia da morte do seu irmão mais velho, José Fernand Gaston Oulman, Piloto da RAF, abatido nos últimos dias da 2ª Guerra Mundial, que era suposto tomar conta dos negócios da família. Alain foi chamado pelo seu pai para exercer na Alberto Oulman e Cª Ldª, funções na área de mercados internacionais, mas isso não o impediu de deixar o sonho de compor música, entretendo-se nos tempos livres, com sua paixão. A música e a literatura eram uma presença constante, e dizem os familiares, que passava horas a ler e a tocar piano. Procurava, na Biblioteca Nacional, os grandes poetas portugueses e, depois, musicava os seus poemas. Esta atividade era realizada com um enorme respeito pela poesia, a ideia de juntar as duas artes fascinava-o e terá primeiramente musicado poemas de Guillaume Apollinaire pensando na voz de Juliette Gréco.

Alain Oulman num ensaio do grupo amador, Lisbon Players
Alain num ensaio do grupo amador, Lisbon Players

Foi no Teatro que revelou outra das suas facetas artísticas, quando saía do emprego, arranjava tempo para, como encenador, no grupo de tetro amador Lisbon Players, dirigir, ao longo de uma década, várias produções no Estrela Hall, grupo esse que ainda existente, composto desde sempre, maioritariamente, por estrangeiros a viver em Lisboa e que se mantem como a companhia de teatro mais antiga da capital e a segunda mais antiga de Portugal, mas a recente demolição do teatro que ocupavam desde 1947 põe hoje em causa essa continuidade.

Voltando à música, sabemos que uma das conquistas de Amália foi a de ter transformado o fado num veículo de alto virtuosismo musical, pelo controlo absoluto da sua insuperável vocalidade e pela invenção do colorido que adaptava à dramaturgia que fazia de cada poema, terão sido esses dons que apaixonaram Alain Oulman, que num concerto da cantora no mítico Olympia em Paris, no início de 1959, jovem, então com trinta anos desloca-se aos bastidores onde conhece Amália e logo ali lhe oferece uma melodia que toca em piano, que Amália aprecia e o aconselha a falar com o poeta Luís de Macedo, pseudónimo literário do adido cultural na Embaixada de Portugal, Luís Chaves de Oliveira, para lhe escrever a letra.

Naquela altura, quem é que não estava apaixonado por Amália Rodrigues?

José Oulman Carp, sobrinho de Alain Oulman e ex-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa

É já em Portugal, no verão do mesmo ano, num acampamento de férias na Foz do Lizandro, que Alain consegue mostrar essa mesma música já sobre o poema “Vagamundo” de Luís de Macedo e existe uma Amália do antes e uma Amália do depois deste encontro, pois nasceria aí a mais original e profícua relação conhecida entre a poesia clássica e a música popular.

Fado Crisfal / Abandono - David Mourão Ferreira - 10 de Abril de 1959
Fado Crisfal / Abandono – David Mourão Ferreira – 10 de Abril de 1959

De volta a Lisboa, passaram a acontecer ensaios regulares, com Oulman a apresentar novos temas sempre ao piano e a ligação entre os dois aprofunda-se, Alain vai introduzindo outros poemas musicados, do primeiro álbum em que colaboram, Oulman é o compositor de sete dos temas e toca piano em dois desses fados. David Mourão Ferreira é o autor de cinco das letras e dessas, a primeira música do lado B, é “Abandono”.
Abandono, cuja letra original, datilografada, com data de 10 de Maio de 1959 e com o título original: Fado Crisfal, riscado à mão e sendo anterior à música do Alain, só que entre ter sido escrito, e a saída do disco, ocorreu a célebre fuga de Peniche de Álvaro Cunhal, a 3 de janeiro de 1960.

Asas Fechadas

As primeiras gravações que fizeram juntos aconteceram no Teatro Taborda, na Costa do Castelo, antes da Valentim de Carvalho se ter mudado para as instalações em Paço de Arcos, as sessões gravadas por Hugo Ribeiro só podiam mesmo começar depois de já não haver elétricos a passar na rua, e as várias noites longas de gravações que decorreram entre 1960 e 1962 deram origem ao disco “Asas Fechadas” que continua a ser o som que, juntamente com “Ensaios” editado apenas em 2020, melhor nos transportam a esse momento refundador da música portuguesa, foram noturnas. O disco que foi editado em 1962, pela Columbia Records, ficaria conhecido como “Busto“, devido à estatueta com o busto da diva, esculpido por Joaquim Valente e fotografado por Nuno Calvet, que figura na capa, chegou a estar proibido por causa da  letra de “Abandono” ou “Fado de Peniche”, assim conhecido à boca pequena…

A Valentim de Carvalho nunca teria tido muitos problemas com a censura, excetuando com este disco que a PIDE retirou do mercado, por causa deste fado, “Pensaram que era uma alusão à prisão do Álvaro Cunhal” explicou o agente artístico da cantora. Após um vaivém de correspondência, “acabaram por autorizar o disco. Mas tratava-se de facto de uma alusão à situação de Cunhal”. Sem proibir o disco, o regime acautela-se, dão-se instruções para a música não passar na rádio e José Silva Dias, antigo deputado da ditadura e chefe dos serviços de informações do Secretariado da Propaganda Nacional impõe: “Este fado, com esta letra, não pode ir para o ar”, ordenou ao diretor musical da Emissora Nacional, Pedro do Prado e a música passou pouco na rádio.

Capa do Álbum "Asas Fechadas", busto esculpido por Joaquim Valente
Capa do Álbum “Asas Fechadas”, busto esculpido por Joaquim Valente

Numa história solta, contada por António Évora, ator penichense que integrava a companhia de Amélia Rey Colaço quando reencontrara Amália Rodrigues em Lisboa. “Ia muito lá a casa com o ator e meu amigo José de Castro. Os dois tinham uma paixão platónica, apesar de ele ser comunista e homossexual.” Numa folga dos ensaios, combinaram um passeio até Peniche. “Ela gostava muito do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, o Zé arranjou um amigo para conduzir e lá fomos.” Aí chegados, e passando diante do forte-prisão, pararam a conversar. “E então ela sai-se com esta: ‘Você pensa que eu sou parola, mas eu não sou. Sei perfeitamente o que cantei naquele fado, sei o que o poema queria dizer, mas, independentemente disso, é um grande poema de amor’.”

Sobre o Busto, Frederico Santiago reforça a sua importância, nacional e internacional:

Muitos portugueses não têm a noção da importância que foi o casamento entre a poesia erudita e a música popular. Amália foi pioneira nisso mesmo internacionalmente. Nunca ouvimos uma Ella Fitzgerald ou o Sinatra cantar um soneto de Shakespeare. A Amália conseguia cantar poesia erudita sem perder o lado popular.”

Frederico Santiago – Cantor lírico do Coro do S. Carlos, apaixonado pela voz de Amália e Investigador da sua Obra

Antes de trabalhar, mas já preparando o álbum seguinte, Alain Oulman consegue dedicar-se novamente ao teatro e é nos bastidores do Estrela Hall que conhece a sua mulher, a professora inglesa Felicity Jane Harrington, atualmente Felicity Serra com quem casa em 1962, casamento onde Amália, também recentemente casada é convidada de honra. Nesse mesmo ano e no seguimento da Crise Académica que se inicia em Coimbra, mas que tem maiores repercussões em Lisboa e em que as ações dos estudantes acabam por fazer com que Marcello Caetano, na altura reitor da Universidade Clássica de Lisboa, pedisse a demissão desse cargo. Essa crise assinalou o despertar para a atividade política de uma geração que, nos anos seguintes, mostraria ser um dos setores mais vivos da resistência ao Estado Novo.

Entre 1962 e 1964 Alain Oulman consegue encenar quatro produções com os Lisbon Players, todas de autores modernos e que dificilmente poderiam ir a palco numa qualquer outra sala: René de Obaldia, Ionesco, Edward Albee (Zoo Story), Harold Pinter, ao mesmo tempo que acrescenta, pela primeira vez, a lírica de Luís de Camões como letra de Fado, num disco menos conhecido, editado apenas em França, no tema Dura Memória gravado para o álbum “Amália 1963”.
Em 1964 Raul Solnado torna-se sócio dos Lisbon Players, proposto por Alain Oulman, mas no primeiro dia de dezembro de 1964 o incêndio no Teatro Nacional D. Maria II faz com que o grupo residente, a Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro se mude temporariamente para o Estrela Hall e a recém-fundada Companhia Portuguesa de Comediantes (CPC) ou Cêpêcê, no também recém-inaugurado Teatro Villaret estreia a peça “O Homem Que Fazia Chover”, de Richard Nash, que foi encenada por Alain Oulman, recebendo a protagonista, Eunice Muñoz o maior salário até então pago a uma atriz dramática, do elenco faziam também parte, Rogério Paulo, José de Castro, Costa Ferreira, Jaime Santos, João Perry e Madalena Braga. Esta sucessão de eventos acaba por tornar a vida cultural lisboeta, mais dinâmica e o entrosamento entre as várias companhias engrandeceu o Teatro da época. Nas muitas tertúlias que eram promovidas, artistas ligados ao teatro à música e à pintura falam mais abertamente de assuntos que até então eram tabu.

Fado Português 

Capa do Álbum "Fado Português", edição australiana
Capa do Álbum “Fado Português”, edição australiana

“…foram inaugurados os estúdios da Valentim de Carvalho em Porto Salvo, então no meio do campo, nos arredores de Paço d’Arcos…” era assim noticiada, em janeiro de 1963, a inauguração do novo estúdio de áudio em Paço de Arcos, uma instalação pioneira nesta área, que por se distanciar do centro desta vila, foi referida como estando na localidade vizinha.

O disco Fado Português foi dos primeiros gravado nos estúdios, tendo sido Amália acompanhada à guitarra portuguesa por Domingos Camarinha e nas violas por Castro Mota e Martinho d’Assunção. A fotografia que aparece na capa é de Augusto Cabrita. Este álbum foi essencial na popularização da obra de Alain Oulman e do chamado “novo fado”. No disco foram publicados três temas que foram considerados “milagres da poesia musicada” (“Fado Português”, “Erros Meus” e “Gaivota”). Era tempo agora de cantar os poetas eruditos da nossa literatura e o grande impulsionador deste feito foi, sem dúvida alguma, Alain Oulman.

No mesmo ano em que era editado o álbum Fado Português, que saiu a publico no dia 1 de janeiro e que consagrava definitivamente a visão musical que Oulman propunha para Amália, com um leque de poetas envolvidos muito mais aberto, abrangendo, além de David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill (Gaivota) e Pedro Homem de Melo, nomes como José Régio (Fado Português) e… Luís de Camões, um dos poemas mais célebres da lírica do poeta, numa abordagem com música de Oulman e arranjos e direção de orquestra de Jorge Costa Pinto.

Tenho feito, no que me toca, sempre a música para um poema já escolhido. Só me lembro de um caso em que se passou o contrário: “A Gaivota”, de Alexandre O’Neill, que foi escrita para uma música que já tinha composta. É que um poema de qualidade é uma coisa muito séria e por isso parece-me melhor aceitá-lo e procurar-lhe uma música adequada do que subordiná-lo às exigências de uma composição que lhe foi alheia e o ignorou completamente ao longo da sua elaboração.

Alain Oulman, in: “A Capital”, 27 de Fevereiro, 1971

Porque não haveria de cantar Camões? 

Se em “Busto” Alain e Amália já tinham desafiado os limites poéticos do fado, para arrepio dos detratores desse tipo de inovações. Ambos queriam mais, e em também em 1965 sairia um disco que haveria de fazer eriçar os cabelos a alguns académicos do país. Em Amália Canta Luís de Camões, EP de 45 rotações, no qual ficaram gravados “Lianor”, “Dura Memória” e “Erros Meus”, todos com composição de Alain Oulman.

Carta ao diretor do jornal de Lisboa de uma leitora indignada com a utilização de Versos de Camões em Fado.
Carta de uma leitora indignada, publicada no jornal de Lisboa

Em 1965 era ultraje uma fadista cantar Camões. A polémica foi tal que chegaram a ser publicados na imprensa depoimentos contra e a favor e a montar-se um tribunal fictício na televisão para julgar Amália. Nesse programa, interrogada sobre se também pretenderia cantar o Camões épico responde: “Não sou nada épica. Nem bélica! Se não, acho que já teria batido em alguém.” estes novos fados que Amália cantou não foram de aceitação fácil. O povo desconfiava daquelas canções pouco castiças e alguma intelectualidade achava escandaloso Camões ser cantado em fado.

Quatro anos antes de rebentar este escândalo, Amália tinha já cantado um soneto de Camões na televisão e pressagiado todo o estrondo de 1965 e à pergunta sobre de quem eram os versos cantados respondeu apenas: “Estavam num livro…”

Foi realmente precisa muita coragem e ousadia, por parte de ambos, para mudar o que parecia estar enraizado no universo purista do Fado.

Houve uma grande polémica por eu cantar Camões. Achei uma burrice. Por pior artista que seja, ninguém consegue destruir um grande poeta, se o cantar. E, se não fosse o Alain fazer uma música que eu achei que fica bem, nunca o teria cantado. Mas onde está a ofensa?

Amália Rodrigues


Mas nem tudo foram críticas e a 17 de dezembro, no Diário de Notícias, Augusto de Castro punha um ponto final na polémica ao escrever e publicar o artigo de fundo intitulado: Cantar Camões. Neste, Augusto de Castro dá os parabéns à fadista, ao poeta Guerra Junqueiro e a Luís de Camões. Para ele “ Amália não é apenas uma voz (…) é um caso e, no seu género e na sua linguagem artística, um caso nacional.” Foi mais longe ao afirmar que “ com ela, de franjas negras e sol nos olhos, anda Portugal pelo Mundo (…) Pode cantar-se tudo (…) Camões amou as gentes como Amália, porque foi povo embarcadiço e poeta (…) Cante Junqueiro, cante Camões, cante o que quiser, Amália, contando que cante bem, como sempre”. Não deixa de ser curioso salientar a par da concordância do autor, a expressão de uma imagem de Camões divulgador do mito do Império tal como o Estado Novo a difundiu. Perante tudo isto, Amália continuou a cantar Camões e todos os poetas, “os seus poetas”, como ela tantas vezes dizia, dando ao Fado novos horizontes, trazendo-lhe novos conteúdos culturais, sempre na companhia do seu ‘cúmplice’ Alain Oulman e da noite para o dia, passaram a ser trauteados os versos de Camões nos mais diversos locais e difundidos nas sete partidas do mundo.

Amália e Camões foram feitos um para o outro.

Manuel Alegre

Estado Novo / PIDE / Caxias

O Actor José de Castro e Amália
O Actor José de Castro e Amália

Alain Oulman frequentava variadas tertúlias culturais e movia-se nos círculos artísticos e literários de Lisboa e, tal como muitos dos seus amigos, era antifascista, alguns desses encontros aconteciam regularmente, durante essa época transpirada de conspirações e intriga, na casa do ator José de Castro, em Paço de Arcos, frequentada também por outros dissidentes do regime . Armando Caldas, encenador com ligações à célula comunista, aparecia algumas vezes e o resto ia sabendo pelo camarada em conversas ciciadas. “Faziam-se lá convívios com a Amália, que sempre demonstrou enorme ternura e carinho pelo Zé. Noutras ocasiões, ia também o Alain Oulman com alguns músicos e ela cantava”, lembrou, meses antes de falecer, o fundador do Teatro Moderno de Lisboa. “Por vezes, o Zé de Castro entregava-me dinheiro que a Amália lhe dava ou lhe fazia chegar. Não sei se ela sabia que era para o partido, mas sabia que o Zé era comunista. Amália também “compreendeu que o regime tinha aspetos desagradáveis e até mesmo insustentáveis. Isso levou-a a dar sinais secretos”, entre eles “a compreensão da dor das famílias dos presos, ao ponto de ter dado dinheiro” e Amália tanto a Alain como a José de Castro, deu muitos contributos que acabavam por ir parar aos grupos anti-regime, garantiu. O Alain participava também nas tertúlias da confeitaria Paraíso com os guitarristas João Bagão e Carlos Paredes, o cineasta Manuel Guimarães, o Rogério Paulo e o Bernardo Santareno.

Em 1966, altura em que era diretor artístico da Companhia Portuguesa de Comediantes, vivia com Felicity hà 4 anos na Praça das Águas Livres, e quando na madrugada 15 de fevereiro três agentes da Pide entraram na casa Alain ainda dormia, mas acordaria com o rebuliço. Os pides ordenaram-lhe que se vestisse, enquanto faziam uma rusga superficial pela casa e atiravam livros das estantes para o chão, “tudo muito rápido e assustador”. Felicity associou os protagonistas, “simplesmente irreais”, aos filmes de James Bond, “São casados?” perguntaram ríspidos. “Sim, somos”, respondeu a mulher. “OK, venha então à PIDE às 11 horas”, disseram enquanto o levavam algemado para a sede da Polícia política.

A hora marcada entrou na sede da polícia política. Esperou uma eternidade sentada numa pequena sala com espelhos que lhe pareceram duplos. Depois, foi interrogada “por um homem de olhos azuis, com blazer azul de botões de metal, charmoso, suave, um gentleman, de ar muito culto. Não era daqueles brutamontes que a PIDE tinha”. O inspetor Oscar Cardoso disfarçava bem. Entrara um ano antes na corporação mais sinistra do regime e gaba-se, até hoje, de ter sido “um dos piores” elementos da casa para os que ousavam desafiar o Estado Novo. Ela, porém, pouco tinha para dizer. “Para me proteger, o Alain nunca me envolveu nesses assuntos”, recorda. “Havia telefonemas esquisitos, em código, essas coisas, mas pensava que ele voltava no mesmo dia por não haver nada contra ele.” Enganara-se pois o marido foi enviado para prisão de Caxias, onde permaneceu cinco semanas na sofrendo longos interrogatórios e as torturas da estátua e do sono.

Terá sido a sua colaboração com a Frente de Ação Popular, que levou à sua prisão, que se resumia a pequenas ajudas que prestava aos pedidos de amigos, “fosse para transmitir uma mensagem, para arranjar um esconderijo por uma noite ou para fazer fotocópias no escritório da firma – Alain Oulman nunca dizia não”, diria mais tarde um amigo. As relações de Oulman com a FAP ter-se-iam iniciado em 1962, mas as afinidades políticas remontavam a anos anteriores e aquando da detenção de Alain, o inspetor Óscar Cardoso estaria convencido de que a FAP planeava destruir a Ponte Salazar no dia da inauguração.

Estudante Revolucionário, Nº4 - 01/08/1965
Estudante Revolucionário, Nº4 – 01/08/1965

Quando foi detido, Alain escondia na casa familiar, a Quinta de São Mateus, no Dafundo, seis mil escudos em dinheiro (aproximadamente 2 500 euros em 2022), uma carta de condução forjada, oito passaportes e bilhetes de identidade falsos, croquis da zona fronteiriça de Trás-os-Montes sinalizados com percursos clandestinos e 165 cartões-de-visita de pessoas fictícias e profissões adulteradas. Tudo documentos usados pelos membros da FAP, colados dentro de livros. Na agenda telefónica, Alain tinha, entre outros, o contacto da filósofa e escritora judia de origem alemã Hannah Arendt, e na Companhia Nacional de Produtos Coloniais, escritório do pai de Alain na Rua dos Fanqueiros, foi apreendido um duplicador Gestetner, no qual se imprimira o jornal clandestino Estudante Revolucionário, destinado ao setor universitário.

Amália Rodrigues estava em digressão por Israel, quando um produtor amigo lhe comentou a prisão de Alain Oulman. O tema saíra nos jornais. Durante esses dias de cativeiro do amigo, Amália não sossegou, desassossegou quem pôde e desdobrou-se em telefonemas. A entrada de Alain Oulman na vida de Amália e a intensa ligação e produção artística de ambos teriam o condão de alargar as furtivas colaborações da cantora com redes clandestinas de solidariedade humana e política. “Era impossível que as relações que ela foi estabelecendo não dessem frutos para além das letras dos fados”. Mas Amália já era um monumento nacional e o regime tinha-se colado o suficiente para, de repente, ser difícil descolar.

Quando enviou a Salazar cópia do relatório da detenção de Oulman, o diretor da PIDE antecipara, subtil, outra possível dimensão do caso. “O preso é o autor de várias composições musicais para a Amália Rodrigues, entre elas umas destinadas a versos de Camões”, escreveu Silva Pais, à mão, a 15 de fevereiro de 1966, no cartão dirigido ao ditador. A Amália saída da colaboração com Oulman e com intelectuais adversos ao regime era, para a PIDE, outro fado. A vida artística é o território natural de afirmação de Amália Rodrigues, sem limites barreiras, sublimado. “Quem trata o fado daquela maneira tem uma enorme capacidade de transgressão”, diz o programador cultural José Manuel dos Santos, cúmplice de tertúlias épicas, madrugada fora, na casa da Rua de São Bento. “Quando, hoje, se diz que é preciso pensar fora da caixa, é bom que se diga que só se pode pensar fora da caixa quando se está fora da caixa. E a Amália estava fora de todas as caixas, até da caixa do fado.

Caderno de prisão de Alain Oulman, composição para ‘Formiga Bossa Nova’ Caxias 21.02.1966

Mas nem quando esteve preso em Caxias, Alain Oulman deixou de se ocupar, se nos primeiros dias em solitária, entretém-se construindo um baralho de cartas com o cartão de uma caixa de cereais, nos dias seguintes, já com direito a papel e caneta, volta a compor para Amália e na cela trabalhou novas composições para Amália incluído este, Formiga Bossa Nova, sobre poema de Alexandre O’Neil, que viria a sair em single alguns anos mais tarde (1969).

Durante o período em que esteve preso, foi-lhe rapado o cabelo e Alain foi apertado várias vezes pela PIDE, algumas vezes de madrugada. Não foi agredido, mas obrigaram-no a permanecer de pé, horas a fio, encadeado por luzes. Felicity quando o visitava, sempre com dois polícias de cada lado, conta “inventava sonhos para poder passar mensagens em código. Os pides eram muito estúpidos, não percebiam nada”.

O pai de Alain, Albert Oulman, ficou desvairado, desencaminhou Lisboa inteira, gabinetes e corredores influentes, com a missão de tirar o filho de Caxias. Idas e voltas aos correios, embaixada, consulado. Numa ocasião, “a meio da noite”, no maior segredo, Felicity e o sogro foram recebidos por Marcelo Caetano. Durante a sua juventude, M. Caetano fundou a Ordem Nova, revista “antidemocrática” e “intolerante” que considerava o fado infetado de “toadas dolentes”, “amor doentio” e veneno “manso”, mas, entretanto, demitira-se da reitoria da Universidade de Lisboa em desacordo com as cargas policiais sobre estudantes. A família Oulman, como muito portugueses, viam nele o perfil suave da ditadura, o rosto do futuro sem Salazar. Marcelo prometeu averiguar. “Em pouco tempo, estaria tudo terminado”, lembra Felicity.

Capa do EP  'Formiga Bossa Nova' editado pela Columbia, em 1969
Capa do EP ‘Formiga Bossa Nova’ editado pela Columbia, em 1969

Para a sua libertação outros valores, menos humanitários, terão sido decisivos. Negócios e questões financeiras ligadas a construção de navios, questões políticas com França e também com a comunidade judaica conforme Marcello Mathias terá antecipado ao Presidente do Conselho, e 15 de março de 1966, terça-feira, Salazar decide expulsar Alain Oulman do País. O embaixador Marcello Mathias telefonou a Amália Rodrigues. “Venho dizer-lhe que chega amanhã o seu menino do coro, que não é nada tão menino de coro como você me disse”, ironizou.

No dia seguinte, o inspetor Óscar Cardoso ligou à mulher do compositor. Seria melhor trazer roupas, um fato, recomendou. Alain saiu diretamente da prisão de Caxias para o aeroporto e dai para Paris.

Aguardou a chegada de Felicity e mudaram-se para Londres onde veio a nascer o seu primeiro filho, Nicolas Oulman que viria a realizar um extraordinário documentário “Com que Voz” (que estreou a 27 de janeiro de 2011) sobre a vida do seu pai.

Durante um ano e pouco na capital inglesa, Alain Oulman fez cursos de cenografia e de arte dramática, dedicou-se à música e ao teatro, onde tentou trabalhar mas sem sucesso.

Mudaram-se novamente para Paris, em janeiro de 1968, onde Alain passou a trabalhar, como Editor, com o seu tio e padrinho Robert, na editora de livros, fundada por familiares seus em 1836, a Calmann-Lévy. O contacto entre Amália e Oulman, apesar da distância, manteve-se permanente e compositor só seria autorizado a regressar a Portugal em maio desse ano, graças a “diligências feitas por seu pai”.

Em Paris, além da atividade literária ligada à editora, encontra-se com vários exilados portugueses, entre os quais, Mário Soares e Manuel Alegre a quem pede autorização para musicar “à sua maneira” o poema “Trova do Vento que Passa”, pensado já num próximo disco de Amália.

Para além da música, o Alain Oulman, com a sua vasta cultura, fez-me travar conhecimento com grandes poetas. Ele trouxe-me os poetas para minha casa. Ele não só fazia as músicas, como ia procurar, aos livros de poesia, letras para as músicas. Dedicou-me um tempo grande. Cultivei-me muito com ele.

Amália Rodrigues
Capa de “Amália Canta Poesia Medieval Portuguesa”

O interesse de Amália em explorar memórias de outros tempos da cultura portuguesa e no alargamento de horizontes poéticos para o fado teve de facto, na sua vontade e voz, a ousadia suficiente para não deixar nunca de procurar outras possibilidades. Depois de Camões, a viagem a dois, no tempo e distância, levou-os ainda mais atrás, num novo disco de 45 rotações, (desta vez um single que seria editado em abril de 1968) no qual, uma vez mais com música composta por Alain Oulman mas agora acompanhada pelo conjunto de guitarras de Raul Nery, cantou “Nós as Meninas” de Pero de Viviãez (autor muito pouco conhecido do século XIII) e “Partindo-se” de João Roiz de Castelo Branco (século XV) que José Régio traduziu para o Português moderno. Chamou-se ao disco “Amália Canta Poesia Medieval Portuguesa”.

Com um pedido do próprio general De Gaulle (chefe de Estado francês), foi levantada a proibição de regressar a Portugal e um outro pedido, este de perdão por parte de Salazar, pela sua expulsão, terá sido também emitido.

Com que Voz

Alain repartia-se agora por um intenso trabalho na editora francesa, com vindas esporádicas a Lisboa tanto para apoiar o pai nos negócios, como para tratar da produção musical do próximo álbum, com a sua musa.

Composição gráfica, Hugo Ribeiro e Amália nos Estúdios Valentim de Carvalho em Paço de Arcos
Composição gráfica, Hugo Ribeiro e Amália nos Estúdios Valentim de Carvalho em Paço de Arcos

Conciliar tempo e trabalho era tarefa difícil e o planeamento era essencial, o disco em gravado inteiramente em apenas duas noites (7 e 8 de Janeiro de 1969) nos Estúdios da Valentim de Carvalho em Paço de Arcos, noites essas que foram consideradas pelo Mestre de gravação Hugo Ribeiro com as mais profícuas da sua vida “em apenas duas noites, sem repetições”. Amália foi aí brilhantemente acompanhada por Pedro Leal na viola e por José Fontes Rocha na guitarra portuguesa.

Os guitarristas de facto tiveram de aprender aquelas harmonias novas que o Alain trazia, que não tinham nada a ver com o fado, porque o fado é pobre em harmonia. E cantei porque, para mim, eram fados. A nobreza que está lá dentro é que conta. Porque o fado é um estado de alma, uma canção que quer dizer destino e tem essa carga. Se, para mim, a música do Alain não tivesse fado, eu não lhe tinha pegado, ou pelo menos, não tinha pegado naquelas todas. Se não tem fado para os outros, para mim tem.

Amália Rodrigues

No caso de Com Que Voz, a dúzia de «pérolas» que o preenchem devem-se em última instância a Oulman, capaz de interpretar e retratar os sentimentos que as palavras já traziam antes de chegarem à voz de Amália e surgiu assim o ‘o álbum perfeito’ de uma cantora que encontra e assume na sua arte o lugar inventivo e surpreendente da imperfeição e o tempo transformá-lo-ia no símbolo maior da revolução que fizeram na nossa música. É, desse prisma, o mais perfeito álbum que nos deixou a também mais moderna e inteligente dos cantores portugueses.

Amália entra na alma das pessoas a cantar.

Hugo Ribeiro, técnico de som da Valentim de Carvalho

O LP, apenas com composições de Alain, para poemas de Cecília Meireles, David Mourão-Ferreira, Luís de Camões, António de Sousa, Alexandre O’Neill, Pedro Homem de Mello e Ary dos Santos e Manuel Alegre, é lançado em Março de 1970 pelas editoras EMI / Valentim de Carvalho e atingiu o 1º lugar na tabela da Associação Fonográfica Portuguesa (AFP) em Portugal e receberia o “IX Prémio da Crítica Discográfica Italiana” (1971), o “Grande Prémio da Cidade de Paris” e o “Grande Prémio do Disco de Paris” (1975).

Capa do CD, Com Que Voz

Foi incluído pelo BLITZ na sua lista dos 50 maiores álbuns portugueses dos últimos 50 anos, em 2009, e foi classificado como o sétimo melhor álbum português da década de 1970. Foi também um dos três álbuns de Amália selecionados pelo jornal Público para a sua lista dos melhores álbuns portugueses. Em 2011, o Expresso pública um artigo sobre este disco considerando que foi ‘o álbum perfeito’ de Amália Rodrigues.

O Alain foi o nascer duma artista completamente diferente, porque não só a música dele era formidável, era mesmo ao meu feitio. Eu estava à espera daquela música. Não é que estivesse à espera, mas a minha maneira de cantar estava à espera daquilo. E aquilo satisfez plenamente o eu poder alargar-me, e poder dizer bem as frases, aquelas frases bonitas, dar a força que elas tinham”. Uma reviravolta: “E depois não foi só isso, cultivei-me um pouco com ele, porque cantei os poetas todos, desde o século XII e XIII, ao Camões e todos os poetas bons. Eu cantei os poetas por causa do Alain

Amália Rodrigues

Em Transição

É ainda em Lisboa em 1970 que nasce o seu segundo filho, Alexandre Oulman, e Alain começa a viver entre o Editor e Compositor, entre Lisboa e Paris.

Capa de Maluda para o álbum “Cantigas d’Amigos” (1971)
Capa de Maluda para o álbum “Cantigas d’Amigos” (1971)

Nesta fase, Alain contribuiria ainda para o álbum “Cantigas d’Amigos” (1971) com o tema Ermida de São Simeão, disco que na contracapa contem um texto, bem-humorado, de Ary dos Santos que conta a génese da ideia, revelando que tudo partiu de um livro de poemas “muito bonito, que cheirava muito bem” feito por Natália Correia “que o desenterrara de alfarrábios muito, muito velhos”. Uma noite, numa das muitas tertúlias em sua casa, Amália, recebe o poeta brasileiro Vinicius de Moraes na companhia de David Mourão Ferreira, Natália Correia, Ary dos Santos, a pintora Maluda e Alain Oulman “os poemas saíram das páginas e ganharam voz”. Pareciam, como Ary descreveu, “ervas dançando no meio da sala”. Amália deu o nome ao disco… E as sessões de gravação decorreram, como sempre, em noites cheias de sabores. “Às vezes, pela meia-noite, os poemas tinham fome e comiam sopa de coentros e arroz de bacalhau”. E no fim Maluda que, “com um pincel e uma tesoura” criou a imagem que vemos na capa. E assim, concluiu assim Ary dos Santos: “pôs-nos a todos na Idade Média”.

O exilado, Manuel Alegre, estando ilegalmente em França, viria a convalescer de uma pneumonia com septicemia na casa emprestada por Oulman em Marai “Eu estava clandestino, era procurado pela polícia e ela sabia tudo isso. Falámos claramente, mas sobretudo de poesia.” Alain chega a aconselhar Alegre a entender-se com Mário Soares e o encontro daria ainda pano para mais fados, entre eles “Meu Amor é Marinheiro”, musicado por Alain e divulgado pela voz suprema, ainda a ditadura reinava.

O Editor

O seu ofício passou então a estar ligado muito mais à Literatura, dedicando-se de corpo e alma Calmann-Lévy, onde, como editor trabalhou afincadamente com escritores de prestígio internacional.
Além de ter editado livros de Catherine Clément, Alfredo Bryce Echenique, Marie Chaix, e o trabalho que que o ligou a Amos Oz, com quem trabalhou durante anos deixou marcas positivas no processo de Paz Israelo-palestiniana, e Amoz, vencedor de vários galardões literários, considerou Alain como o melhor, do mais de 20, editores que teve em toda a sua brilhante e consagrada carreira.
A mesma sensibilidade e empenho exemplares foram com certeza também necessários para gerir contratos da prolífera e famosíssima escritora Patricia Highsmith de quem era confidente além de editor e agente mundial.

Mário Soares com as duas primeiras edições do livro editado por Alain Oulman
Mário Soares com as duas primeiras edições do livro editado por Alain Oulman

Incumbiu-se também a traduzir vários autores portugueses, de realçar que foi ele que convenceu Mário Soares a escrever o que acabou por ser o livro “Le Portugal Baillonné – témoignage” posteriormente traduzido como “Portugal Amordaçado”, por ele editado num trabalho de proximidade com Mário Soares que acompanhou nos círculos culturais de Paris e ajudou a divulgar a situação política e social em Portugal.

Após o 25 de Abril de 1974, Alain Oulman fez parte da minoria que defendeu Amália, quando esta foi acusada de estar ligada ao anterior regime, escrevendo cartas para os jornais “República” e “O Século” e em 1977 sai o último disco inteiramente composto por Alain – Cantigas Numa Língua Antiga (Columbia) e foi Oulman quem fez a música para “Meu Amor é Marinheiro”, com base em “A Trova do Amor Lusíada”, que Manuel Alegre escreveu quando esteve preso em Caxias, mas, após a morte do seu tio, em 1982, passa a dedicar-se a tempo inteiro à editora Calmann-Lévy.

Fotografia autografada por Amália, com dedicatória a Alain Oulman
Fotografia autografada por Amália, com dedicatória a Alain Oulman

Amália que o considerava um dos seus «anjinhos da guarda» disse-lhe em público durante a homenagem de 1980, já aqui abordada “você teve a grandeza de descer até ao fado!”.

Quando em 1989, foi convidado para realizar um filme sobre Amália, o realizador José Fonseca e Costa propôs mostrar como é que a cantora aprendia a cantar uma música. Amália começou por recusar liminarmente a ideia. Com “muita paciência e alguma teimosia mas, finalmente, após uma conversa de várias horas no salão da casa da Amália travada com ela e com o Alain, obtive o consentimento de ambos para a filmagem”, o resultado foi este momento sublime de cumplicidade entre os dois, sobre o belíssimo Soledad, de Cecília de Meireles (LINK).

Com excesso de trabalho e alegando falta de tempo, Alain Oulman adia por três vezes, uma operação ao coração, e acaba por falecer na cidade de Paris, a 29 de Março de 1990, quando contava apenas 61 anos de idade. Foram encontradas várias composições que tinha prontas para a Voz de Amália Rodrigues. A 9 de Junho de 1993 foi feito comendador da Ordem do Infante D. Henrique, a título póstumo. Tendo em conta o grande alcance da atividade desenvolvida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), na elaboração de instrumentos normativos para a proteção do património cultural, em particular a Convenção para a Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural de 1972, a convenção para a salvaguarda do património cultural imaterial foi aprovada em Paris em 17 de Outubro de 2003, já a apresentação da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade teve o seu ponto de partida com a aprovação por unanimidade pela Câmara de Municipal de Lisboa no dia 12 de maio de 2010 e foi apresentada publicamente na Assembleia Municipal, no dia 01 de junho, onde foi aclamada por todas as bancadas partidárias. A decisão de declarar o Fado Património Cultural Imaterial da Humanidade foi finalmente tomada a 27 de Novembro de 2011, na reunião do VI Comité Intergovernamental da UNESCO, que teve lugar em Nusa Dua, na ilha indonésia de Bali.

O mundo dos poetas, servido magnificamente pela voz de Amália Rodrigues e o génio de Alain Oulman, tal como a era portentosa das Descobertas, deu, a conhecer ao mundo, outro Portugal, contribuindo para a sua divulgação a nível internacional.

Misteriosa e noturna “Nome de rua” abordada no início deste texto, foi no entanto, uma das raras composições de Alain Oulman, cujo carácter evoca o fado tradicional, com base no poema do então muito jovem, David Mourão-Ferreira.

Nome de rua quieta,
Onde à noite ninguém passa,
Onde o ciúme é uma seta,
Onde o amor é uma taça.
Nome de rua secreta,
Onde à noite ninguém passa,
Onde a sombra do poeta,
De repente, nos abraça
...

Nome de rua (excerto) - David Mourão-Ferreira (1927-1996)

Alain Oulman pode ainda ser um nome desconhecido para muitos, mas é a ele, que se deve a reinvenção do nosso fado. Artista ímpar, de múltiplos talentos, como compositor, editor e encenador, ajudou a abrir caminho para uma liberdade esperada hà muito, constatando a sua modernidade, quem o vem a estudar torna-o como referência obrigatória, e o reconhecimento do seu mérito, volvidos que estão mais de 30 anos sobre a sua morte, é eternamente merecedor dos mais rasgados elogios.

Talvez tenha sido a ansia de liberdade que o levou usar a arte para difundir uma mensagem de liberdade, nunca o fez com a sua voz, mas sobe escolher a melhor para o fazer. Se para Amália era inata a forma de cantar, já Alain, nas suas múltiplas facetas, na sua vontade de explorar o canto da língua portuguesa, com as suas exaustivas buscas pela biblioteca nacional e no contacto direto com escritores, conseguiu juntar, da melhor forma, a poesia com a música, compondo obras tocam no coração de que a ouve.

Testemunhos

Alain Oulman, que em sucessivos discos publicados nos anos 50 e 60 soube transformar a fadista Amália Rodrigues – cuja popularidade era incontestada desde o final da Segunda Guerra – na «Amalia», sem acento, que se tornou diva internacional. Oulman divulgou a voz, mas soube renovar-lhe a cada passo os atributos com desafios ousados: primeiro, já não apenas a guitarra e a viola, mas também os acompanhamentos orquestrais, depois as variações sobre estes, conduzindo-a ao extremo de um «jazz combo».

Jorge P. Pires, Expresso, 1998

Eu tenho uma proximidade muito maior com a Amália dos anos 60, do período do Oulman. Cabe tudo ali – e é isso que lhe dá dimensão. Nós não podemos reduzi-la – como ela nunca se quis reduzir – a um qualquer sub-género do seu repertório.

Rui Vieira Nery, DN, 2002

A Voz, que de pequenina ouvia esporadicamente na rádio, que pelos meus 16 anos, em casa dos meus pais, eu escutara com enorme assombro no disco que marca o início da sua colaboração com Alain Oulman, conhecido como o “Disco do Busto” e que decisivamente me arrebatara para o canto.

Teresa Salgueiro

Cantei porque para mim era fado. A nobreza que está lá dentro é que conta. Se não tem fado para os outros, para mim tem.

Amália Rodrigues

Fontes:

“Estudante revolucionário”, nº 4, Domingo, 1 de Agosto de 1965

“A Capital”, 27 de Fevereiro de 1971;

“Amália Uma Biografia”, Lisboa, Contexto Editora – Santos, Vítor Pavão (1987)

“Correio da Manhã”, 30 de Março de 1990;

“Diário popular”, 30 de Março de 1990;

“O Jornal”, 30 de Março de 1990;

“Indy”, 5 de Dezembro de 1997;

Enciclopédia Açoriana, em culturacores.azores.gov.pt

 “Primavera: David Mourão-Ferreira”, Lisboa, Museu do Fado – AAVV (2007)

A bibliografia – Raul Solnado – A vida não se perdeu – Por Leonor Xavier (2009)

Arte de marear: ensaios – Manuel Alegre (2002)

As Sílabas de Amália – Manuel Alegre (2020)

Mário Soares e a revolução – David Castaño (2013)

Amália – Por Sónia Louro – ISBN: 9789897103421

The Talented Miss Highsmith: The Secret Life and Serious Art of Patricia Highsmith – Por Joan Schenkar (2010)

Marguerite Yourcenar: Inventing a Life – Josyane Savigneau, Marguerite Yourcenar (1991)

Fado and the Place of Longing: Loss, Memory and the City – Richard Elliott (2010)

Amália Rodrigues: a vida é um longo adeus um blogue de Jorge Muchagato para o Centenário [2020]

“Ensaios, “Le Portugal Baillonné””, Fundação Mário Soares / AMS – Arquivo Mário Soares

Fotografias:

Quinta de São Mateus no Dafundo – Serviço de Arquivo Municipal, Coleção Património Arquitetónico do Concelho de Oeiras

Fado Crisfal / Abandono – David Mourão Ferreira – 10 de Abril de 1959 – Museu do Fado

Mário Soares – por Guta de Carvalho

Placa toponímica – Rui Veiga

Ensaio no Estrela Hall – Lisbon Players

Capas de discos – tenhomaisdiscosqueamigos

Excerto de Jornal (Carta ao diretor) – Jornal de Lisboa

Estudante Revolucionário – casacomum.org

Outras – Museu do Fado

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Rui Veiga

Da primária ao secundário, nas escolas da Vila, da Ginástica no CDPA à Natação e ao Polo Aquático na piscina da Escola Náutica, muito aprendi nesta terra onde vivo. Hoje com formação em História de Arte e Desenho, abracei o desafio da Voz de Paço de Arcos, de ajudar a manter um jornalismo cívico, público, de contato próximo e comunitário.

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